Lembro-me bem do meu fascínio avassalador pela saga Star Wars - na
altura ainda Guerra das Estrelas - assim que vi a saga, algures para o
fim da década de 80. Vi em VHS os três episódios. Era puto para ter os
meus sete anos. Lembro-me do velho sofá de família me acolher naqueles
minutos a ver magia no pequeno ecrã. Acho que nunca me tinha sentido tão
próximo do espaço e de um mundo capaz de ir tão longe quanto a minha
imaginação. Lembro-me de pensar: "Como é que a existência de um filme
assim não passa nas notícias. Isto é genial. Devia ser obrigatório ver
este filme". Lembro-me de sentir que era uma descoberta incrível aquela
que eu tinha feito ao ver o filme e de serem poucas pessoas que o
valorizavam como eu. Mas sempre que encontrava outro apaixonado ficava
eufórico. Como se de uma religião se tratasse, tentava convencer os meus
pais e colegas da Primária do Bairro da Ponte a embarcarem numa
história intergaláctica distante no espaço mas tão verosímil,
entusiasmante e repleta de sensações novas para um puto de sete ou oito
anos. Mais tarde lembro-me de ficar chocado quando alguém não tinha
visto a trilogia. E segundos depois já estava com um: "tens de ver! É
inesquecível". Lembro-me de emprestar as preciosas três K7's VHS que
guardava religiosamente no lugar de honra da minha colecção de filmes à
minha namorada - actual mulher - quando começámos a namorar. Ela não
tinha a certeza se tinha visto todos os filmes. Tinha de mudar isso. Mas
infelizmente não fiz dela uma devota desta religião/saga repleta de
seres estranhos, de uma força inerente que tudo controla, de um império
do mal que tem origem em pessoas que já foram boas e em personagens
verdadeiramente apaixonantes em situações complexas e moralmente
ambíguas. Daqui a pouco vou ver o regresso da saga, com a esperança que
seja mais fiel à primeira trilogia (IV, V e VI) e com a mesma
naturalidade/intimidade intergaláctica.
Nesta paixão um dos momentos mais importantes foi quando a saga foi reposta no cinema em 1997, remasterizada digitalmente (com efeitos melhorados). Finalmente consegui ver tudo no cinema, como devia ter sido visto logo pela primeira vez. Andava em pulgas para que estreasse e, depois, confesso que me voltei a emocionar com as cenas mais memoráveis.
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quarta-feira, dezembro 16, 2015
sábado, fevereiro 21, 2015
os filmes dos óscars
Os filmes candidatos a Melhor Filme dos Óscares, por mim:
patriota e nem por isso anti-guerra
génio à força
me stephen, you jane. a vida dos Hawking com e sem ELA
Uma história impressionante e bem contada, muitíssimo
bem interpretada mas que podia ser mais arrebatadora na forma como é realizada
e na forma como a história se desenvolve e como nos aproxima das personagens.
boyhood, 12 anos de vida num filme notável
birdman, um homem passáro a voar de emoção em emoção
patriota e nem por isso anti-guerra
American Sniper
génio à força
whiplash
me stephen, you jane. a vida dos Hawking com e sem ELA
A Teoria de Tudo. A Theory of Everything.
The Imitation Game –
O Jogo da Imitação –
a Selma de Martin Luther King
Grand Hotel Budapest
Um filme tão cómico, com as típicas personagens
cativantes,
divertidas e interessantes do seu realizador, quanto sério e intenso.
Wes
Anderson consegue um belo equilíbrio numa boa história sobre o concierge
lendário de um hotel numa república ficcional e as suas aventuras,
sempre com o
seu fiel paquete a seu lado, passado entre a primeira e segunda guerra
mundial.
Um vasto, peculiar e bem conseguido elenco alimenta um filme que nos faz
rir, sorrir e nos chega a emocionar. Wes Anderson ao seu melhor.
boyhood, 12 anos de vida num filme notável
Linklater filmou ao longo de 12 anos Ellar Coltrane a tornar-se adolescente e Ethan Hawke e Patricia Arquette como pais num filme único e notável: Boyhood: Momentos de Uma Vida.
Imagine um drama onde acompanhamos uma criança (Ellar Coltrane) a crescer, dos 6 aos 18. Pelo meio assistimos às vicissitudes da vida dos pais, divorciados, da mãe a tentar encontrar um rumo, da irmã (filha de Linklater) desde os tempos em que lhe faz a vida negra à maioridade.
Já houve muitos (e bons) filmes com esta temática. Nunca houve um como Boyhood: Momentos de Uma Vida, de Richard Linklater.
O que o realizador de Antes do Amanhecer concretiza é uma experiência de vida a ocorrer à frente dos olhos do espectador da forma mais real e natural possível numa espécie de cápsula do tempo.
O filme foi gravado ao longo de 12 anos de vida real dos atores – vemos as crianças a crescer de uma forma inédita. Todos os anos o realizador filmava cerca de uma semana com os atores.
O resultado desses 12 anos somados em filme é algo muito mais natural e sociologicamente relevante do que qualquer filme até agora conseguiu. O que Linklater consegue é uma vivência íntima, emocionante e tocante (sem ser lamechas) num filme único e notável.
Os anos passam de cena em cena, de uma forma tão natural quanto bem conseguida. Linklater abre-nos janelas para a vida desta família, a fazer lembrar a saga de filmes Antes do Amanhecer/Anoitecer/da Meia Noite.
E nesses momentos de vida destas personagens intensas brilham os atores: Ellar Coltrane (que vemos atuar como criança e adolescente), Patricia Arquette, Ethan Hawke e Lorelei Linklater (a filha do realizador e que é irmã mais velha do jovem protagonista).
Imagine um drama onde acompanhamos uma criança (Ellar Coltrane) a crescer, dos 6 aos 18. Pelo meio assistimos às vicissitudes da vida dos pais, divorciados, da mãe a tentar encontrar um rumo, da irmã (filha de Linklater) desde os tempos em que lhe faz a vida negra à maioridade.
Já houve muitos (e bons) filmes com esta temática. Nunca houve um como Boyhood: Momentos de Uma Vida, de Richard Linklater.
O que o realizador de Antes do Amanhecer concretiza é uma experiência de vida a ocorrer à frente dos olhos do espectador da forma mais real e natural possível numa espécie de cápsula do tempo.
O filme foi gravado ao longo de 12 anos de vida real dos atores – vemos as crianças a crescer de uma forma inédita. Todos os anos o realizador filmava cerca de uma semana com os atores.
O resultado desses 12 anos somados em filme é algo muito mais natural e sociologicamente relevante do que qualquer filme até agora conseguiu. O que Linklater consegue é uma vivência íntima, emocionante e tocante (sem ser lamechas) num filme único e notável.
Os anos passam de cena em cena, de uma forma tão natural quanto bem conseguida. Linklater abre-nos janelas para a vida desta família, a fazer lembrar a saga de filmes Antes do Amanhecer/Anoitecer/da Meia Noite.
E nesses momentos de vida destas personagens intensas brilham os atores: Ellar Coltrane (que vemos atuar como criança e adolescente), Patricia Arquette, Ethan Hawke e Lorelei Linklater (a filha do realizador e que é irmã mais velha do jovem protagonista).
birdman, um homem passáro a voar de emoção em emoção
A comédia negra Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância, o filme de Alejandro González Iñárritu, com Edward Norton e Michael Keaton ao melhor nível de sempre é, com justiça, um dos favoritos aos Óscares - é um dos mais nomeados: melhor filme, ator (Michael Keaton), actor secundário (Edward Norton), actriz (Emma Stone), realizador, argumento original, cinematografia, mistura de som e edição de som. Aqui fica a crítica.
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O intricado, emocional, egocêntrico e perturbado mundo de um ator acabado que vive há décadas à sombra de um blockbuster de super-herói da década de 80 (Birdman) é exposto de uma forma intensa, emotiva e, diga-se, brilhante em Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância (um belo título).
O filme do mexicano Alejandro González Iñárritu, um dos favoritos aos Óscares e nomeado para sete Globos de Ouro, mostra sem medo de arriscar a preparação para uma peça de teatro que é nada mais nada menos do que a tentativa desesperada de Riggen Thomson, interpretado na perfeição por um revigorado Michael Keaton, de mostrar que ainda é alguém, que é capaz de surpreender. A decadência e caos parece estar a um pequeno passo do brilhantismo e do sucesso no mundo dos artistas atores.
À sua frente tem vários desafios: o ‘fantasma’ do super-herói da trilogia que interpretou, Birdman, que lhe segreda ao ouvido (ao estilo alter-ego) que ele é bom demais para o teatro e devia era voltar a tentar o sucesso com novo filme de Birdman; o agente preocupado e que tenta manter tudo sob controlo (Zach Galifianakis); a filha problemática com problemas de droga (a sarcástica Emma Stone) que é sua assistente; o genial no palco e extremamente problemático e instável fora dele ator de teatro Mike (Edward Norton); a sua namorada atriz na peça; a estreante na Broadway e namorada do instável Mike (Naomi Watts); uma crítica de teatro do New York Times anti-atores de Hollywood capaz de erguer ou destruir uma peça com uma crítica.
O resultado? Iñárritu usa de forma notável a técnica plano-sequência – que dá a ilusão que todo o filme é filmado em movimento contínuo da câmara com um só plano que se move de local em local, de personagem em personagem, de emoção em emoção. A ajudá-lo, para além da fotografia brilhante de Emmanuel Lubezki, tem uma banda sonora repleta de batimentos e sons bizarros de Antonio Sanchez.
Num filme repleto de dilemas emocionais representados de forma única e visceral por atores a interpretar atores, este tipo de realização não só assenta que nem uma luva à história caótica da psique de atores inseguros que estão com os nervos à flor da pele, como dá ritmo constante ao filme, mantendo o espetador sempre alerta, de discussão emotiva em dilema pessoal. É justo dizer que o elenco é notável e há verdadeira química intensa e visceral entre todos os atores nas várias cenas emocionais que partilham.
Michael Keaton e Edward Norton têm dos melhores desempenhos das suas carreiras já de si ‘cheias’ de momentos brilhantes.
Comédia negra. Montanha russa de emoções. Fábula teatral. Desvario psicológico. Energia vibrante de acção em acção. Birdman é tudo isto e muito mais. É certo que não vai agradar e todos mas promete ser uma experiência intensa e que mantém todos na sala de cinema alerta dando uma perspetiva das emoções que um grupo de atores no limite estão a experienciar.
Não deixa de ser curioso ver como o filme retrata na perfeição, numa espécie de bailado emocional, o caos que os atores vivem instantes antes da cortina subir, e são perfeitos e coordenados – tudo faz sentido e o caos torna-se em ordem – assim que a cortina do teatro sobe e eles entram naquele espaço ‘sagrado’ e mágico que parece ser o palco. Iñárritu, que também co-assina o guião, ilustra ainda vários dilemas no mundo do espectáculo, não só a ‘luta’ entre atores de cinema e de teatro mas também o mundo da internet VS o mundo do espectáculo convencional, entre outras dicotomias.
[Alerta de SPOILER]
Só o final do filme é menos intenso, vibrante e surpreendente – contrasta com o resto do filme e é, diríamos, ‘leve’ –, mas essa parece ser uma escolha/contraste consciente dos autores que parece tirar força ao fim mas tem algum sentido na história que parece tentar entrar na psique dos atores.
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Sabe-se agora que o realizador Alejandro Gonzalez Inarritu e o co-argumentista Alexander Dinelaris tinham planeado inicialmente que o fim do filme seria com Johnny Depp, sentado no camarim sozinho, enquanto tentava desesperadamente soltar-se das amarras de Pirata das Caraíbas e da personagem do Capitão Jack Sparrow.
Inarritu já tinha admitido o mês passado que tinha alterado o fim do filme porque decidiu que era «um fim embaraçoso». Agora Dinelaris revelou que final é que era:
«A câmara iria passear-se pelos corredores do backstage, como fez todo o filme, entrávamos no camarim onde estaria Johnny Depp sentado, a olhar-se no espelho, enquanto poria a peruca de Riggan Thomson (a personagem de Michael Keaton. Atrás estaria um poster do Pirata das Caraíbas. E na voz de Jack Sparrow, iria-se ouvir: 'O que é que estás aqui a fazer, mate?' Iria ser um fim em sátira.».
A explicação foi dada por Dinelaris no podcast 'The Q&A'. Este fim iria sugerir que Depp também teria problemas em ver-se livre da personagem de Jack Sparrow, tal como Thomson, a personagem central do filme.
a Selma de Martin Luther King
Pode ter alguns clichés e abordar um tema que já foi várias
vezes retratado no cinema, mas Selma coloca-nos numa das alturas mais
importantes dos direitos civis norte-americanos, na perspectiva de um dos
heróis mais importantes na igualdade entre seres humanos nos EUA: Martin Luther
King.
Uma história sobre decência humana. Sobre os valores básicos
e a forma como se pode e deve combater aqueles que os espezinham persistindo.
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Um dos oito candidatos ao Óscar de Melhor Filme é este
Selma: a dura luta pelos direitos civis no Alabama em 1965.
Os direitos civis norte-americanos já foram retratados
noutros filmes de Hollywood mas Selma – sobre a histórica marcha de 1965 na pequena localidade do
Alabama – oferece uma visão cativante e emotiva, sobre a dor e a crueldade de
uma espécie de guerra civil no sul dos EUA tendo como protagonista Martin
Luther King Jr.. A realizadora Ava DuVernay mostra-nos sem paternalismos um
Luther King multidimensional com defeitos e virtudes (o sonho pela igualdade) e
permite-nos refletir sobre o quanto a humanidade já evoluiu desde 1965. A
ajudá-la tem uma notável interpretação do britânico David Oyelowo.
O filme produzido por personalidades como Oprah (também
entra como atriz) e Brad Pitt é a história de um movimento liderado por Luther
King, num ambiente tenso e complexo, pela defesa do direito ao voto da
comunidade negra no Alabama.
Depois de um primeiro protesto que acaba em violência sem
limites e morte, Luther King organiza uma marcha de milhares de pessoas, vindas
de todo o país, contra as autoridades locais e que acabou por obrigar o
presidente norte-americano (desempenhado por Tom Wilkinson) a permitir uma das
maiores vitórias dos direitos civis norte-americanos.
Uma história sobre a persistente luta pela decência humana.
segunda-feira, fevereiro 02, 2015
me stephen, you jane. a vida dos Hawking com e sem ELA
A Teoria de Tudo. A Theory of Everything.
23 janeiro.
A arte imita a vida. Esta
podia ser a máxima da edição dos Óscares deste ano, com cinco dos oito filmes
nomeados para a categoria mais desejada a serem histórias reais. É esse o caso
deste A Teoria de Tudo (nomeado para melhor filme, ator, atriz, guião adaptado
e banda sonora), onde acompanhamos a vida em comum de Jane e o físico Stephen
Hawking, desde os tempos da universidade, onde Stephen descobre que tem a
doença degenerativa ELA (esclerose lateral amiotrófica).
É ainda enquanto jovem estudante,
apaixonado por Jane, que ele descobre não só que tem esta doença como vai
deixar de conseguir controlar o seu próprio corpo, incluindo a fala, e tem uma
esperança média de vida de dois anos.
Como todos os bons filmes,
esta história real tem o condão de nos deixar a pensar, imaginar e questionar a
vida tão peculiar e rica que vimos passar em duas horas de filme. De uma
situação impossível houve esperança, tal como diz Hawking a certa altura. E
houve esperança nos anos de vida que vemos passar em filme, mas esperança com
dificuldades incríveis, períodos sombrios, algum egoísmo próprio dos humanos e
momentos brilhantes seja para a física como para as vidas daquelas pessoas.
Muito bem realizado por
James Marsh, com conta peso e medida, as interpretações são notáveis num filme
emotivo q.b.. Eddie Redmayne é cativante e brilhante como Hawking e é
acompanhado na perfeição por Felicity Jones como Jane. A ver.
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patriota e nem por isso anti-guerra
American Sniper
24 janeiro 2015.
Clint Eastwood domina com perfeição, simplicidade e argúcia
a arte de contar uma história sem querer dourar a pílula, exagerar ou ser
protagonista. Para Eastwood é a história e as emoções de uma personagem que
devem ser protagonistas e ele não se coíbe, e ainda bem, de ter uma realização
e banda sonora a condizer, menos
invasiva para que a história saia mais genuína e deixe espaço para a imaginação
do espectador para encher o que não se diz.
Se fosse árbitro de futebol Eastwood seria um daqueles que
nem se dá por ele, e por isso é que é tão bom e competente. Deixa que a
história/jogo tome o seu curso e as vezes que intervém são tão naturais e apropriados
que nem damos por ele.
American Sniper dá a Bradley Cooper a interpretação de uma
vida. Eastwood foca-se muito nos olhos de Cooper que dão uma dimensão complexa
e interessante a este atirador preciso que parece agir da forma mais correcta
possível: com o único intuito de defender a sua pátria mas acima de tudo os
seus colegas marines em apuros no terreno. O terreno é o Iraque e a guerrilha
urbana tão desgastante.
O filme é um belo retrato – não sei se não será demasiado
favorável ao atirador Kyle do que a pessoa que ele era na realidade, é possível
– do soldado e do homem perturbado pela guerra, com dificuldades para desligar
a “ficha” de soldado quando regressa a casa.
Kyle fez quatro ‘tours’ no Iraque,
passou por lá mais de 1000 dias, o que é pouco habitual. O filme foca (e bem)
uma luta dele com um atirador sírio, bem como o desejo dele de cumprir missão
após missão à medida que a sua lenda vai crescendo.
O filme não dá muitas
respostas mas levanta boas questões e mostra de forma crua, dura e intensa as
dificuldades de um homem da guerra na tentativa de se reintegrar numa sociedade
pacífica, no regresso a casa. Na minha opinião o filme também retrata bem as
dificuldades da mulher de Kyle em perceber o marido e em lidar com aquele homem
que volta da guerra magoado e perturbado, que não a deixa entrar na sua mente e
a quem ela não consegue chegar. Menos bem conseguida parece-me ser a história
de amor entre os dois, que fica um pouco em segundo plano. Há um pormenor peculiar entre marido e mulher: Kyle liga à mulher com facilidade mesmo no meio da zona de guerra, uma facilidade das guerras modernas mas que prega alguns sustos à personagem bem desempenhada por Sienna Miller.
Ainda assim é um belíssimo filme, como lembra Eurico de Barros
(no Observador): com muitas das boas lições de John Ford incorporadas por
Eastwood – o seu fiel herdeiro “na forma e na moral” – desde o filmar dos olhos
tão expressivos e que podem contar tanto, até à simplicidade “sugerindo o
máximo e fazendo o mínimo” tanto de Eastwood na realização como de Cooper (que
ficou 15 kg mais pesado) na interpretação.
Outro aspecto que pensando bem o filme acaba por não
explorar bem – e seria mais complexo e interessante se o fizesse – foi dar
atenção aqueles soldados que tinham na guerra um problema de base. Questionavam
o que estavam ali a fazer e se estariam mesmo a combater os maus da fita. É que
a personagem de Chris Kyle e, pelo que li, a pessoa em si, era um soldado
patriota sem dúvidas sobre os motivos porque estava ali e que via tudo a preto
e branco, bons (americanos) e maus (iraquianos).
Não há grande – nenhuma mesmo
– compaixão pelo povo do outro lado que também sofria. E sempre que há algum
soldado com dúvidas, como acompanhamos de perto Kyle, o filme desvaloriza essa
perspectiva tal como o próprio Kyle. Mostra essa perspectiva como se fosse uma
mera cobardia sem interesse e, no entanto, era um ponto interessante e fulcral
que podia dar uma dose extra de tensão e complexidade moral ao filme, que é
demasiado republicano na forma de pensar a guerra, tal como a personagem.
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cinema
whiplash
Whiplash é uma espécie de um conto, realizado com um
pormenor, ritmo musical e quase cardíaco que nos empolga e mete na acção só com
a delícia que são os movimentos de câmara, os planos de pormenor dos batuques,
com cadência e vibração.
Em pleno e justo destaque está J.K. Simmons, o favorito na categoria de ator secundário para os Óscares, graças ao brilhante papel que desempenha neste filme que também é candidato a melhor filme.
O ator Miles Teller é um jovem estudante de bateria que embarca nesta viagem dura e sombria, onde a busca pela perfeição às mãos de um professor de jazz num conservatório (Simmons) assume contornos de abuso de poder e terror psicológico.
A banda sonora repleta de sons que apelam aos sentidos
(chega a parecer o bater do coração) é perfeita para a história a ser contada,
tal como se aconteceu com a banda sonora bizarra de Birdman.
Acompanhamos neste conto um jovem que quer ser o melhor
baterista que pode ser, um dos grandes, dos melhores. Pelo caminho, numa das
melhores escolas de jazz dos EUA, apanha um professor determinado em levar os
seus alunos para lá do que pensariam ser possível.
Ele busca génios à força, com sangue, suor e lágrimas
(literalmente), sem condescendência nem conversas moles ou inspiracionais. É
um instrutor militar do jazz com o objectivo de fazer com que todos se superem.
E quem não tem a ‘pele dura’ ou talento, depressa está fora
do seu esquadrão especial de corrida. A história faz-nos pensar neste mundo da
busca pela perfeição, da especialização. Da obsessão em ser o melhor, em fazer
mais, treinar mais, lutar mais, melhorar sempre – no filme há sempre espaço para
ser melhor, para atingir a genialidade.
Egos, exageros, obsessões pela perfeição estão ao rubro
neste filme peculiar, único e tão bem interpretado como realizado. É simples,
duro, rítmico, curto e brilhante.
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cinema
terça-feira, outubro 28, 2014
recordar goodnight irene
Para o jornal Mundo Universitário, em 2008.




fotos de Mónica Moitas
Entrevista para o jornal Mundo Universitário a Nuno Lopes e Paolo-Marinou Blanco, protagonista e realizador do filme português Goodnight Irene. Mais sobre o filme explico tudo por aqui.
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Perfis
Nuno Lopes – o multifacetado. Acabou de fazer 30 anos. Nuno Lopes tem alternado como poucos em Portugal (talvez apenas como Nicolau Breyner), entre a comédia e o drama. Formado na Escola Superior de Teatro e Cinema e com diversas formações no estrangeiro, Nuno tem já uma vasta experiência em teatro, televisão (onde trabalhou no Brasil e em Portugal) e cinema. Apesar de termos visto o seu talento para a comédia na televisão (Herman SIC, Diário de Maria e Paraíso Filmes) foram os papéis dramáticos que lhe trouxeram distinções: o Globo de Ouro de Melhor Actor em 2006, pelo filme Alice, o prémio de Melhor Actor no Festival de Cinema Luso-Brasileiro e o de Shooting Star no Festival de Cinema de Berlim.
Nuno está satisfeito até porque «trabalho não falta» e «não tenho parado». «Neste momento estou numa peça na Cornucópia chamada D. Carlos», explicou enquanto rabiscava o seu caderno de apontamentos (sempre presente), antes de iniciarmos esta entrevista, advertindo ainda que termina já no dia 18 de Maio. Mas o maior desafio recente é a série televisiva de sketches humorísticos para a RTP1, Os Contemporâneos, «onde me tenho divertido imenso mas que me tira muito tempo». Até porque Nuno ainda faz locuções publicitárias e, quando pode, é DJ.
No cinema, depois do muito elogiado Alice, de Marco Martins, de ter entrado em Quaresma e Peixe Lua e António, Um Rapaz de Lisboa, fez este Goodnight Irene e acabou de rodar Efeitos Secundários, de Paulo Rebelo. Para já é tudo, «enquanto não se confirmam alguns projectos que lhe foram sugeridos».
Paolo Marinou-Blanco – o poliglota. Tem um nome de origem italiana, pai português, mãe grega e nasceu em Nova Iorque. Mas o carácter internacional de Paolo não se fica por aqui. Saiu de Nova Iorque aos dois anos, onde «nasceu por acaso» e viveu depois na Bélgica, Madeira, Grécia, África do Sul e Macau. Tudo isto porque o pai era delegado da TAP. Aos 18 anos saiu de casa e passou a maior do tempo entre Londres, Nova Iorque e Portugal.
«Inicialmente não ligava ao cinema, interessava-me era o teatro e comecei como actor e depois encenador», explicou Paolo, admitindo que não tinha talento para actor. Depois quis «enriquecer o intelecto» e estudou Filosofia e História em Londres, tendo ainda feito um mestrado em Literatura Francesa. Com 24 anos e graças a ter descoberto o filme Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard, «percebi que queria fazer cinema». Seguiu-se novo périplo de estudos agora em Nova Iorque (de 2000 a 2003), onde teve a ideia e escreveu o Goodnight Irene, que foi rodado em 2005 e estreia esta semana.
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Curiosidade
Nuno Lopes é um estudioso das personagens que interpreta, especialmente no cinema. Para fazer do tímido Bruno, em Goodnight Irene, viu dezenas de filmes e alguns livros. Stalker, de Andrei Tarkovsky, The Conversation, do Francis Ford Coppola, Pickpocket, de Robert Bresson são alguns exemplos, bem como livros do Kafka, até porque o Bruno é «vive muito no seu mundo à parte», e filmes com Philip Seymour Hoffman. Também esteve uma semana a trabalhar na oficina de chaves onde a personagem trabalhava para «perceber o ofício e o universo daquelas pessoas».
Sinopse Lisboa. Portugal. Hoje em dia. Para Alex e Bruno poderia ser qualquer outra época ou lugar. Alex é um actor inglês falhado, velho e solitário, que grava narrações para vídeos turísticos, e embebeda-se até adormecer. Bruno é um jovem e recatado serralheiro que se dedica à sua obsessão: lutar contra a passagem do tempo, invadindo casas de estranhos para fazer “registos” das suas vidas. Partilham uma obsessão por Irene, uma atraente pintora, que tem toda a paixão pela vida que a eles lhes falta. Mas um dia Irene desaparece, sem deixar rasto... Embora inicialmente contrariados, Alex e Bruno unem forças para descobrir o que lhe aconteceu. À medida que procuram pistas no apartamento de Irene, vão se instalando aos poucos, e uma verdadeira amizade nasce entre estes dois homens solitários. Quando descobrem que Irene poderá estar em perigo em Espanha, este dois heróis improváveis decidem salvá-la.




fotos de Mónica Moitas
Entrevista para o jornal Mundo Universitário a Nuno Lopes e Paolo-Marinou Blanco, protagonista e realizador do filme português Goodnight Irene. Mais sobre o filme explico tudo por aqui.
«Houve uma química especial no filme e na vida real»
Chama-se Goodnight Irene é um dos filmes portugueses mais prometedores dos últimos anos. Conta a história de um velho inglês e de um jovem português cujo fascínio pela intensa Irene irá torná-los improváveis amigos. O filme estreia já na quinta-feira. Protagonista, Nuno Lopes e realizador, Paolo Marinou-Blanco estiveram à conversa com o MU sobre a experiência «inesquecível». Tudo isto teve como pano de fundo o templo do cinema que é a Cinemateca.
Depois de já terem rodado e produzido o filme e agora que estão a dias da estreia, o que é Goodnight Irene significou para vocês?
NUNO Para mim foi muito mau (risos).
PAOLO …Querem que me vá embora? (risos)
NUNO Para já, desde o Alice nunca mais tinha feito cinema e quando rodei este filme já tinham passado três anos desde a última vez. Foi um regresso ao cinema, que eu tinha muita vontade que acontecesse. Já tinha recebido convites, uns que declinei por falta de tempo, outros porque os projectos não me interessavam. E com o Goodnight Irene apareceu o filme que me apetecia fazer até porque havia uma expectativa grande da minha parte. Houve ainda o lado de voltar a trabalhar com uma pessoa que está a fazer uma primeira obra, que eu acho interessante, porque estás a descobrir as coisas ao mesmo tempo que o realizador e sentes que estás a fazer parte de algo muito importante para ele.
PAOLO O Nuno tem razão quando diz a primeira obra é de uma importância muito grande para um realizador. Uma pessoa encara como se fosse o único filme que fosse fazer. Tudo tem uma importância de vida ou de morte. Agora, olhando para trás, o que achei mais fantástico foi sentir que todos trabalharam na mesma direcção. Isso tinha-me preocupado no início, mas desde os actores à equipa técnica, senti que éramos realmente uma equipa a trabalhar para o mesmo objectivo, que parecia ser maior do que nós. Apesar de ter sido eu a engendrar tudo aquilo, sentia-me apenas mais uma peça. Essa sensação de família intelectual e criativa foi muito especial e inesquecível.
Como é que surgiu a ideia para o Goodnight Irene?
PAOLO A maioria das ideias que tenho surgem de imagens muito simples. A partir daí faço quase um trabalho de detective a perceber porque a imagem é importante para mim. Neste caso tinha presente a imagem de duas personagens, Alex e Bruno, que estavam numa casa que não era deles. O Alex, mais velho, estava numa cadeira de rodas e o Bruno a empurrá-lo ao som de música, quase a fazê-lo dançar. No fundo soube quem eram as personagens, havia uma interdependência emocional entre dois homens sozinhos e individuais que estavam à vontade numa casa que não era deles.
NUNO Aliás, essa cena está no filme.
Nuno, como definirias a personagem do Bruno e o que deste de ti a ele?
NUNO O Bruno é muito solitário. Foi abandonado e isso tem uma marca muito importante na vida dele. E no cerne do personagem parece existir uma vontade de voltar a ter uma família, uma casa. Conscientemente o Bruno recusa isso e faz o contrário: esconde-se do mundo e isola-se. Esses dois lados confrontam-se e explodem nos assaltos dele às casas dos outros, que é como se fosse uma droga para poder sentir-se parte de uma família. A partir do momento em que a Irene entra na vida do Bruno e do Alex, eles percebem que a vida deles já não pode ser a mesma, porque passam a falar com outra pessoa e precisam disso. Quando ela desaparece, isso passa a focar-se um no outro e começam-se a aproximar.
Existe uma relação forte no filme entre o Alex, interpretado pelo experiente Robert Pugh, e o Bruno. Foi fácil criar isso com alguém tão experiente?
NUNO Havia um certo receio da minha parte em trabalhar com o Robert. Nunca tinha trabalhado em cinema com um actor estrangeiro e sei que a cultura pode influenciar. Além disso, o Robert tinha uma experiência gigante e trabalhado com pessoas que admiro. E era fundamental para o filme que a nossa relação funcionasse e houvesse cumplicidade. No início parecia haver um certo distanciamento que se foi quebrando com a rodagem e com o juntar dos dois personagens, até que passou a haver uma química muito especial no filme e na vida real. Começámo-nos a dar cada vez melhor e na rodagem em Espanha já nos divertíamos que nem loucos e éramos melhores amigos.
PAOLO Estavam sempre na brincadeira (risos). Uma vez, em Espanha, tivemos um problema de luz e foi necessário conduzir o carro em que iam o Nuno e o Robert durante duas horas, à procura do melhor local. Normalmente os actores sairiam do carro para estarem mais confortáveis. Mas eles ficaram lá na conversa a rir constantemente todo aquele tempo!
Do que é que falaram tanto?
NUNO Falámos muito pouco de cinema, curiosamente.
PAOLO Foi mais Kant e Nietzsche (risos)
NUNO (risos) Acabou por ser mais situações da vida, histórias daquela rodagem e de rodagens anteriores. O Robert tem imensas histórias incríveis de rodagens, inclusive do Master & Commander… mas não sei se posso contar… (risos).
Porque é que o nome do filme mudou já depois da rodagem de Olho Negro para Goodnight Irene?
PAOLO Quando entrámos na rodagem o título já não fazia muito sentido porque as cenas que o justificavam tinham sido retiradas do guião. Só comecei a pensar num novo título na fase final da montagem. Como a Irene é a catalisadora da história, achei que era bom inclui-la no título. E depois a música folk americana Goodnight Irene surgiu na rodagem de forma espontânea, não existia no guião.
NUNO A canção era o Robert que conhecia, eu só o acompanhei. Começámos a cantá-la no chão do Terreiro do Paço.
PAOLO Durante muito tempo, na montagem, não pensava incluir essa cena em que eles cantam juntos. Mas acabei por usar porque me agrada essa parte da espontaneidade e parecia um bom título. Houve bastante contributo dos actores.
NUNO Para mim foi muito mau (risos).
PAOLO …Querem que me vá embora? (risos)
NUNO Para já, desde o Alice nunca mais tinha feito cinema e quando rodei este filme já tinham passado três anos desde a última vez. Foi um regresso ao cinema, que eu tinha muita vontade que acontecesse. Já tinha recebido convites, uns que declinei por falta de tempo, outros porque os projectos não me interessavam. E com o Goodnight Irene apareceu o filme que me apetecia fazer até porque havia uma expectativa grande da minha parte. Houve ainda o lado de voltar a trabalhar com uma pessoa que está a fazer uma primeira obra, que eu acho interessante, porque estás a descobrir as coisas ao mesmo tempo que o realizador e sentes que estás a fazer parte de algo muito importante para ele.
PAOLO O Nuno tem razão quando diz a primeira obra é de uma importância muito grande para um realizador. Uma pessoa encara como se fosse o único filme que fosse fazer. Tudo tem uma importância de vida ou de morte. Agora, olhando para trás, o que achei mais fantástico foi sentir que todos trabalharam na mesma direcção. Isso tinha-me preocupado no início, mas desde os actores à equipa técnica, senti que éramos realmente uma equipa a trabalhar para o mesmo objectivo, que parecia ser maior do que nós. Apesar de ter sido eu a engendrar tudo aquilo, sentia-me apenas mais uma peça. Essa sensação de família intelectual e criativa foi muito especial e inesquecível.
Como é que surgiu a ideia para o Goodnight Irene?
PAOLO A maioria das ideias que tenho surgem de imagens muito simples. A partir daí faço quase um trabalho de detective a perceber porque a imagem é importante para mim. Neste caso tinha presente a imagem de duas personagens, Alex e Bruno, que estavam numa casa que não era deles. O Alex, mais velho, estava numa cadeira de rodas e o Bruno a empurrá-lo ao som de música, quase a fazê-lo dançar. No fundo soube quem eram as personagens, havia uma interdependência emocional entre dois homens sozinhos e individuais que estavam à vontade numa casa que não era deles.
NUNO Aliás, essa cena está no filme.
Nuno, como definirias a personagem do Bruno e o que deste de ti a ele?
NUNO O Bruno é muito solitário. Foi abandonado e isso tem uma marca muito importante na vida dele. E no cerne do personagem parece existir uma vontade de voltar a ter uma família, uma casa. Conscientemente o Bruno recusa isso e faz o contrário: esconde-se do mundo e isola-se. Esses dois lados confrontam-se e explodem nos assaltos dele às casas dos outros, que é como se fosse uma droga para poder sentir-se parte de uma família. A partir do momento em que a Irene entra na vida do Bruno e do Alex, eles percebem que a vida deles já não pode ser a mesma, porque passam a falar com outra pessoa e precisam disso. Quando ela desaparece, isso passa a focar-se um no outro e começam-se a aproximar.
Existe uma relação forte no filme entre o Alex, interpretado pelo experiente Robert Pugh, e o Bruno. Foi fácil criar isso com alguém tão experiente?
NUNO Havia um certo receio da minha parte em trabalhar com o Robert. Nunca tinha trabalhado em cinema com um actor estrangeiro e sei que a cultura pode influenciar. Além disso, o Robert tinha uma experiência gigante e trabalhado com pessoas que admiro. E era fundamental para o filme que a nossa relação funcionasse e houvesse cumplicidade. No início parecia haver um certo distanciamento que se foi quebrando com a rodagem e com o juntar dos dois personagens, até que passou a haver uma química muito especial no filme e na vida real. Começámo-nos a dar cada vez melhor e na rodagem em Espanha já nos divertíamos que nem loucos e éramos melhores amigos.
PAOLO Estavam sempre na brincadeira (risos). Uma vez, em Espanha, tivemos um problema de luz e foi necessário conduzir o carro em que iam o Nuno e o Robert durante duas horas, à procura do melhor local. Normalmente os actores sairiam do carro para estarem mais confortáveis. Mas eles ficaram lá na conversa a rir constantemente todo aquele tempo!
Do que é que falaram tanto?
NUNO Falámos muito pouco de cinema, curiosamente.
PAOLO Foi mais Kant e Nietzsche (risos)
NUNO (risos) Acabou por ser mais situações da vida, histórias daquela rodagem e de rodagens anteriores. O Robert tem imensas histórias incríveis de rodagens, inclusive do Master & Commander… mas não sei se posso contar… (risos).
Porque é que o nome do filme mudou já depois da rodagem de Olho Negro para Goodnight Irene?
PAOLO Quando entrámos na rodagem o título já não fazia muito sentido porque as cenas que o justificavam tinham sido retiradas do guião. Só comecei a pensar num novo título na fase final da montagem. Como a Irene é a catalisadora da história, achei que era bom inclui-la no título. E depois a música folk americana Goodnight Irene surgiu na rodagem de forma espontânea, não existia no guião.
NUNO A canção era o Robert que conhecia, eu só o acompanhei. Começámos a cantá-la no chão do Terreiro do Paço.
PAOLO Durante muito tempo, na montagem, não pensava incluir essa cena em que eles cantam juntos. Mas acabei por usar porque me agrada essa parte da espontaneidade e parecia um bom título. Houve bastante contributo dos actores.
Paolo, acha que era fácil encontrar duas personagens assim na baixa de Lisboa?
PAOLO Acho que sim. O Alex faz locução para guias turísticos e isso existe. Fui actor da companhia Lisbon Players. E havia uma série de ex-patriados, que tinham sido actores e ganhavam a vida a fazer narrações. Foi a base para a mecânica da personagem do Alex. O Nuno faz chaves e é um português típico com traumas muito particulares.
Como é que o experiente Robert Pugh entrou para este filme?
PAOLO Tivémos de suborná-lo (risos)… Fizemos um casting em Londres e havia muito a atitude de alguns agentes de actores do tipo “quem és tu?” Houve dificuldade e estranheza por ser um filme português a tentar arranjar um actor com alguma experiência e por ser um realizador estreante. A escolha acabou por ser fácil. No fundo o Robert era o melhor. A relação com ele foi óptima. No início foi algo mais profissional, mas imediatamente percebi não estava a lidar com uma vedeta no mau sentido do termo. E acho que ele ganhou confiança na minha realização e o sentido de humor dele aproximou-nos. Hoje somos amigos.
O filme passa-se quase todo no centro de Lisboa e num apartamento. Porque houve a necessidade de torná-lo, depois, num road movie até Espanha?
PAOLO Era enfatizar a procura das duas personagens em busca da Irene. A Irene é o catalizador de uma busca em todos os sentidos. Da própria Irene, que desapareceu, e de uma proximidade com outras pessoas e a busca de algum sentido. Eles tinham de tomar esse último passo e sair desse quase casulo que era a casa da Irene.
PAOLO Acho que sim. O Alex faz locução para guias turísticos e isso existe. Fui actor da companhia Lisbon Players. E havia uma série de ex-patriados, que tinham sido actores e ganhavam a vida a fazer narrações. Foi a base para a mecânica da personagem do Alex. O Nuno faz chaves e é um português típico com traumas muito particulares.
Como é que o experiente Robert Pugh entrou para este filme?
PAOLO Tivémos de suborná-lo (risos)… Fizemos um casting em Londres e havia muito a atitude de alguns agentes de actores do tipo “quem és tu?” Houve dificuldade e estranheza por ser um filme português a tentar arranjar um actor com alguma experiência e por ser um realizador estreante. A escolha acabou por ser fácil. No fundo o Robert era o melhor. A relação com ele foi óptima. No início foi algo mais profissional, mas imediatamente percebi não estava a lidar com uma vedeta no mau sentido do termo. E acho que ele ganhou confiança na minha realização e o sentido de humor dele aproximou-nos. Hoje somos amigos.
O filme passa-se quase todo no centro de Lisboa e num apartamento. Porque houve a necessidade de torná-lo, depois, num road movie até Espanha?
PAOLO Era enfatizar a procura das duas personagens em busca da Irene. A Irene é o catalizador de uma busca em todos os sentidos. Da própria Irene, que desapareceu, e de uma proximidade com outras pessoas e a busca de algum sentido. Eles tinham de tomar esse último passo e sair desse quase casulo que era a casa da Irene.
Quais as expectativas que têm?
NUNO Nunca espero muito. Gostava muito que as pessoas gostassem, mas nunca sei bem o que vão achar. Sei o que eu acho, mas também estou tão dentro do projecto... Estou muito curioso.
PAOLO Já tive feedback positivo. Satisfaz-me ver que as pessoas reagem bem ao humor que está no filme. Para mim isso é óptimo. O filme esteve em Itália e vai para outro festival no Reino Unido. Acho que a reacção em Portugal vai ser positiva. São personagens com que é fácil identificarem-se.
Têm outros projectos no cinema?
PAOLO Sobreviver (risos). Agora estou a trabalhar num novo argumento de outra longa-metragem que se passa em Portugal e na Índia.
NUNO Acabei de gravar outra longa-metragem, Efeitos Secundários, de Paulo Rebelo e no cinema, para já, não tenho projectos confirmados.
NUNO Nunca espero muito. Gostava muito que as pessoas gostassem, mas nunca sei bem o que vão achar. Sei o que eu acho, mas também estou tão dentro do projecto... Estou muito curioso.
PAOLO Já tive feedback positivo. Satisfaz-me ver que as pessoas reagem bem ao humor que está no filme. Para mim isso é óptimo. O filme esteve em Itália e vai para outro festival no Reino Unido. Acho que a reacção em Portugal vai ser positiva. São personagens com que é fácil identificarem-se.
Têm outros projectos no cinema?
PAOLO Sobreviver (risos). Agora estou a trabalhar num novo argumento de outra longa-metragem que se passa em Portugal e na Índia.
NUNO Acabei de gravar outra longa-metragem, Efeitos Secundários, de Paulo Rebelo e no cinema, para já, não tenho projectos confirmados.
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Perfis
Nuno Lopes – o multifacetado. Acabou de fazer 30 anos. Nuno Lopes tem alternado como poucos em Portugal (talvez apenas como Nicolau Breyner), entre a comédia e o drama. Formado na Escola Superior de Teatro e Cinema e com diversas formações no estrangeiro, Nuno tem já uma vasta experiência em teatro, televisão (onde trabalhou no Brasil e em Portugal) e cinema. Apesar de termos visto o seu talento para a comédia na televisão (Herman SIC, Diário de Maria e Paraíso Filmes) foram os papéis dramáticos que lhe trouxeram distinções: o Globo de Ouro de Melhor Actor em 2006, pelo filme Alice, o prémio de Melhor Actor no Festival de Cinema Luso-Brasileiro e o de Shooting Star no Festival de Cinema de Berlim.
Nuno está satisfeito até porque «trabalho não falta» e «não tenho parado». «Neste momento estou numa peça na Cornucópia chamada D. Carlos», explicou enquanto rabiscava o seu caderno de apontamentos (sempre presente), antes de iniciarmos esta entrevista, advertindo ainda que termina já no dia 18 de Maio. Mas o maior desafio recente é a série televisiva de sketches humorísticos para a RTP1, Os Contemporâneos, «onde me tenho divertido imenso mas que me tira muito tempo». Até porque Nuno ainda faz locuções publicitárias e, quando pode, é DJ.
No cinema, depois do muito elogiado Alice, de Marco Martins, de ter entrado em Quaresma e Peixe Lua e António, Um Rapaz de Lisboa, fez este Goodnight Irene e acabou de rodar Efeitos Secundários, de Paulo Rebelo. Para já é tudo, «enquanto não se confirmam alguns projectos que lhe foram sugeridos».
Paolo Marinou-Blanco – o poliglota. Tem um nome de origem italiana, pai português, mãe grega e nasceu em Nova Iorque. Mas o carácter internacional de Paolo não se fica por aqui. Saiu de Nova Iorque aos dois anos, onde «nasceu por acaso» e viveu depois na Bélgica, Madeira, Grécia, África do Sul e Macau. Tudo isto porque o pai era delegado da TAP. Aos 18 anos saiu de casa e passou a maior do tempo entre Londres, Nova Iorque e Portugal.
«Inicialmente não ligava ao cinema, interessava-me era o teatro e comecei como actor e depois encenador», explicou Paolo, admitindo que não tinha talento para actor. Depois quis «enriquecer o intelecto» e estudou Filosofia e História em Londres, tendo ainda feito um mestrado em Literatura Francesa. Com 24 anos e graças a ter descoberto o filme Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard, «percebi que queria fazer cinema». Seguiu-se novo périplo de estudos agora em Nova Iorque (de 2000 a 2003), onde teve a ideia e escreveu o Goodnight Irene, que foi rodado em 2005 e estreia esta semana.
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Curiosidade
Nuno Lopes é um estudioso das personagens que interpreta, especialmente no cinema. Para fazer do tímido Bruno, em Goodnight Irene, viu dezenas de filmes e alguns livros. Stalker, de Andrei Tarkovsky, The Conversation, do Francis Ford Coppola, Pickpocket, de Robert Bresson são alguns exemplos, bem como livros do Kafka, até porque o Bruno é «vive muito no seu mundo à parte», e filmes com Philip Seymour Hoffman. Também esteve uma semana a trabalhar na oficina de chaves onde a personagem trabalhava para «perceber o ofício e o universo daquelas pessoas».
Sinopse Lisboa. Portugal. Hoje em dia. Para Alex e Bruno poderia ser qualquer outra época ou lugar. Alex é um actor inglês falhado, velho e solitário, que grava narrações para vídeos turísticos, e embebeda-se até adormecer. Bruno é um jovem e recatado serralheiro que se dedica à sua obsessão: lutar contra a passagem do tempo, invadindo casas de estranhos para fazer “registos” das suas vidas. Partilham uma obsessão por Irene, uma atraente pintora, que tem toda a paixão pela vida que a eles lhes falta. Mas um dia Irene desaparece, sem deixar rasto... Embora inicialmente contrariados, Alex e Bruno unem forças para descobrir o que lhe aconteceu. À medida que procuram pistas no apartamento de Irene, vão se instalando aos poucos, e uma verdadeira amizade nasce entre estes dois homens solitários. Quando descobrem que Irene poderá estar em perigo em Espanha, este dois heróis improváveis decidem salvá-la.
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cinema
sexta-feira, outubro 24, 2014
reportagem spielberg :: cavalo de guerra
Reportagem em janeiro de 2012 para o jornal Destak.
REPORTAGEM
O génio de Spielberg na primeira pessoa
Estivemos em Londres para falar com Steven Spielberg sobre o seu novo filme ‘Cavalo de Guerra’, uma «história de amor» entre um rapaz e o seu cavalo, em plena 1.ª Grande Guerra, onde morreram milhões de pessoas e cavalos. Ouvimos o mestre do cinema sonhador Steven Spielberg sobre tudo: carreira, vida, cinema e... cavalos.
João Tomé
É um dos homens que, através dos seus filmes, mais pessoas influenciou e “tocou” desde que o cinema é a 7ª Arte. Determinado, sonhador, criativo e de uma humildade e dedicação surpreendente, foi assim que vimos e ouvimos o único Steven Spielberg, no início de Janeiro, em Londres, numa conferência de imprensa a falar sobre o seu novo “rebento”: Cavalo de Guerra.
Habituado a nos fazer sonhar, o realizador e produtor norte-americano por trás de pérolas do cinema como ET, Tubarão, Indiana Jones, A Lista de Schindler, também tem a sua quota parte em filmes de guerra.
Mas esta é uma «história de amor» que se passa numa guerra, a 1ª Grande Guerra, por isso «é universal e para todas as idades, dos 8 aos 80».
Spielberg fala com paixão dos seus filmes, das suas histórias. Foi a produtora de sempre, Kathleen Kennedy (com quem também falámos) que ficou cativada com a peça de teatro sobre o jovem que vai para a guerra para recuperar o seu cavalo, Joey. Depois de contar a Spielberg, ele sobe logo que a queria realizar, mesmo antes de ver a peça e ler o livro de Michael Porpugo, com quem também falámos.
Isto porque a filha, Destry, 15 anos, «é cavaleira de competição» e mal soube da história disse: «Tens de fazer o Cavalo de Guerra! Tens de o fazer para mim!». Após ver a peça, Spielberg admite que «fez-me chorar e gostei mesmo muito».
O cavalo que une pessoas
«O Joey tem uma forma de unir as pessoas, especialmente pessoas dos dois lados da guerra», explicou Spielberg, que na pesquisa ficou surpreendido com um facto que desconhecia: «morreram quase tantos cavalos quanto pessoas [15 milhões]».
«Foi o fim do cavalo como instrumento de guerra, o início da era da máquina – o tanque, o avião –, tudo convergiu na Primeira Grande Guerra, que todos diziam que ia ser a ‘guerra para acabar com todas as guerras’», explicou entusiasmado este «amante de história», que se diz mais «europeu do ponto de vista histórico» e admite mesmo: «era a única disciplina em que era bom aluno».
O realizador de 65 anos, lembrou a sua proximidade com a guerra. «O meu pai, que faz 95 este mês, combateu na II Grande Guerra. Cresci a ouvir histórias de guerra e os meus primeiros filmes de 8mm eram na maioria filmes de guerra!» Até porque «não há melhor maneira de testar uma pessoa, do que atirá-la no meio de uma guerra».
Não filmar é morrer
Spielberg, para quem «querer realizar algo é uma sensação inegável», «bem diferente de produzir». E admite realizar para além dos 100 anos, como Manoel de Oliveira? «Não quero parar. Sempre disse que só páro quando o meu amigo Clint Eastwood quiser desistir. Como isso não vai acontecer...».
Tempo ainda para explicar que nem todos os realizadores de Hollywood se regem por números e dinheiro, até porque é um «processo colaborativo» e «nós só queremos ir e contar as nossas histórias. É uma tortura que adoramos e pela qual os nossos antepassados passaram, na era dourada de Hollywood. O objectivo é o mesmo».
Spielberg é Spielberg e isso significa que, desde Tubarão, faz o que quer. Por isso aumentou o orçamento de Cavalo de Guerra só para poder filmar em Devon, localidade onde se passa o filme e poder ter, sem efeitos especiais, «o céu incrível de Devon», numa homenagem a realizadores como John Ford e Howard Hawks.
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CENAS DIFÍCEIS COM CAVALOS
O mais difícil de filme foi mesmo uma altura em que o cavalo Joey fica literalmente preso no meio da batalha entre britânicos e alemães, em arame farpado, num dos momentos mais belos do filme de Spielberg. «Tivemos alguns segundos de cada vez para gravar porque o cavalo queria sempre levantar-se», diz Spielberg que garante: o arame nunca magoou o cava-lo.
Não faltaram cavalos na rodagem e só para fazer todos os movimentos de Joey foram mais de 10, cada um com o seu tratador «de Espanha, Austrália, América e Reino Unido». Mas só dois deram mesma a “cara” e mesmo «improvisação»: Abraham e Finder (que já tinha estado em Seabiscuit).
TUBARÃO, O PONTO CHAVE
«O ponte chave na minha carreira foi Tubarão». Diz Spielberg, que admite que antes era «realizador por encomenda, depois podia fazer o que quisesse, que havia quem passa-se o cheque. Por isso pude fazer um filme que antes foi recusado e ridicularizado: Encontros Imediatos do 3.º Grau».
GERIR TEMPO DISPONÍVEL
«Os pontos baixos da minha carreira são relacionados com a gestão do tempo. Sentir que não tenho tempo suficiente para família e amigos. Tenho sete crianças, tenho de equilibrar tudo». O que não o afecta são as críticas e a bilheteira. Spielberg homenageou ainda o ‘seu’ compositor desde há 40 anos, John Williams, o colaborador mais importante.
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Michael Morpurgo inspirou-se em veteranos
O escritor Michael Morpurgo inspirou o seu livro de 1982 nas histórias que três ex-combatentes da I Grande Guerra, de Devon, lhe contaram sobre a importância dos cavalos na guerra. Em 1914, 10% das tropas britânicas montavam a cavalo, em 1917 eram só 2%.
Nomeação de ‘Cavalo de Guerra’ para os Óscares
Estar na lista para Melhor Filme é algo que Spielberg não esperava por este filme familiar. Desde 2006 (’Munique’) que um filme seu não era nomeado e o último Óscar (tem três) foi em 1999 (’O Resgate do Soldado Ryan’).
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Curtis só podia dizer «sim»Richard Curtis é um dos argumentistas e realizadores mais talentosos do Reino Unido. Escreveu e produziu pérolas como: ‘Quatro Casamentos e um Funeral’, ‘Bean’, ‘Notting Hill’, ‘O Diário de Bridget Jones’ e realizou ‘Amor Acontece’ e ‘O Barco do Rock’. Falámos com ele na passadeira vermelha, na antestreia do filme.
REPORTAGEM
O génio de Spielberg na primeira pessoa
Estivemos em Londres para falar com Steven Spielberg sobre o seu novo filme ‘Cavalo de Guerra’, uma «história de amor» entre um rapaz e o seu cavalo, em plena 1.ª Grande Guerra, onde morreram milhões de pessoas e cavalos. Ouvimos o mestre do cinema sonhador Steven Spielberg sobre tudo: carreira, vida, cinema e... cavalos.
João Tomé
É um dos homens que, através dos seus filmes, mais pessoas influenciou e “tocou” desde que o cinema é a 7ª Arte. Determinado, sonhador, criativo e de uma humildade e dedicação surpreendente, foi assim que vimos e ouvimos o único Steven Spielberg, no início de Janeiro, em Londres, numa conferência de imprensa a falar sobre o seu novo “rebento”: Cavalo de Guerra.
Habituado a nos fazer sonhar, o realizador e produtor norte-americano por trás de pérolas do cinema como ET, Tubarão, Indiana Jones, A Lista de Schindler, também tem a sua quota parte em filmes de guerra.
Mas esta é uma «história de amor» que se passa numa guerra, a 1ª Grande Guerra, por isso «é universal e para todas as idades, dos 8 aos 80».
Spielberg fala com paixão dos seus filmes, das suas histórias. Foi a produtora de sempre, Kathleen Kennedy (com quem também falámos) que ficou cativada com a peça de teatro sobre o jovem que vai para a guerra para recuperar o seu cavalo, Joey. Depois de contar a Spielberg, ele sobe logo que a queria realizar, mesmo antes de ver a peça e ler o livro de Michael Porpugo, com quem também falámos.
Isto porque a filha, Destry, 15 anos, «é cavaleira de competição» e mal soube da história disse: «Tens de fazer o Cavalo de Guerra! Tens de o fazer para mim!». Após ver a peça, Spielberg admite que «fez-me chorar e gostei mesmo muito».
O cavalo que une pessoas
«O Joey tem uma forma de unir as pessoas, especialmente pessoas dos dois lados da guerra», explicou Spielberg, que na pesquisa ficou surpreendido com um facto que desconhecia: «morreram quase tantos cavalos quanto pessoas [15 milhões]».
«Foi o fim do cavalo como instrumento de guerra, o início da era da máquina – o tanque, o avião –, tudo convergiu na Primeira Grande Guerra, que todos diziam que ia ser a ‘guerra para acabar com todas as guerras’», explicou entusiasmado este «amante de história», que se diz mais «europeu do ponto de vista histórico» e admite mesmo: «era a única disciplina em que era bom aluno».
O realizador de 65 anos, lembrou a sua proximidade com a guerra. «O meu pai, que faz 95 este mês, combateu na II Grande Guerra. Cresci a ouvir histórias de guerra e os meus primeiros filmes de 8mm eram na maioria filmes de guerra!» Até porque «não há melhor maneira de testar uma pessoa, do que atirá-la no meio de uma guerra».
Não filmar é morrer
Spielberg, para quem «querer realizar algo é uma sensação inegável», «bem diferente de produzir». E admite realizar para além dos 100 anos, como Manoel de Oliveira? «Não quero parar. Sempre disse que só páro quando o meu amigo Clint Eastwood quiser desistir. Como isso não vai acontecer...».
Tempo ainda para explicar que nem todos os realizadores de Hollywood se regem por números e dinheiro, até porque é um «processo colaborativo» e «nós só queremos ir e contar as nossas histórias. É uma tortura que adoramos e pela qual os nossos antepassados passaram, na era dourada de Hollywood. O objectivo é o mesmo».
Spielberg é Spielberg e isso significa que, desde Tubarão, faz o que quer. Por isso aumentou o orçamento de Cavalo de Guerra só para poder filmar em Devon, localidade onde se passa o filme e poder ter, sem efeitos especiais, «o céu incrível de Devon», numa homenagem a realizadores como John Ford e Howard Hawks.
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CENAS DIFÍCEIS COM CAVALOS
O mais difícil de filme foi mesmo uma altura em que o cavalo Joey fica literalmente preso no meio da batalha entre britânicos e alemães, em arame farpado, num dos momentos mais belos do filme de Spielberg. «Tivemos alguns segundos de cada vez para gravar porque o cavalo queria sempre levantar-se», diz Spielberg que garante: o arame nunca magoou o cava-lo.
Não faltaram cavalos na rodagem e só para fazer todos os movimentos de Joey foram mais de 10, cada um com o seu tratador «de Espanha, Austrália, América e Reino Unido». Mas só dois deram mesma a “cara” e mesmo «improvisação»: Abraham e Finder (que já tinha estado em Seabiscuit).
TUBARÃO, O PONTO CHAVE
«O ponte chave na minha carreira foi Tubarão». Diz Spielberg, que admite que antes era «realizador por encomenda, depois podia fazer o que quisesse, que havia quem passa-se o cheque. Por isso pude fazer um filme que antes foi recusado e ridicularizado: Encontros Imediatos do 3.º Grau».
GERIR TEMPO DISPONÍVEL
«Os pontos baixos da minha carreira são relacionados com a gestão do tempo. Sentir que não tenho tempo suficiente para família e amigos. Tenho sete crianças, tenho de equilibrar tudo». O que não o afecta são as críticas e a bilheteira. Spielberg homenageou ainda o ‘seu’ compositor desde há 40 anos, John Williams, o colaborador mais importante.
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Michael Morpurgo inspirou-se em veteranos
O escritor Michael Morpurgo inspirou o seu livro de 1982 nas histórias que três ex-combatentes da I Grande Guerra, de Devon, lhe contaram sobre a importância dos cavalos na guerra. Em 1914, 10% das tropas britânicas montavam a cavalo, em 1917 eram só 2%.
Nomeação de ‘Cavalo de Guerra’ para os Óscares
Estar na lista para Melhor Filme é algo que Spielberg não esperava por este filme familiar. Desde 2006 (’Munique’) que um filme seu não era nomeado e o último Óscar (tem três) foi em 1999 (’O Resgate do Soldado Ryan’).
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Entrevistas ao elenco: "Ninguém diz não a Spielberg"
Falámos com o principal guionista de Cavalo de Guerra, Richard Curtis, e com parte do elenco, no nosso périplo em Londres e resumimos aqui em poucas linhas os muitos minutos de conversa.
ENTREVISTA A RICHARD CURTIS
Richard Curtis foi convidado para ser guionista de Cavalo de Guerra, graças ao filme ‘Amor Acontece’
Curtis só podia dizer «sim»Richard Curtis é um dos argumentistas e realizadores mais talentosos do Reino Unido. Escreveu e produziu pérolas como: ‘Quatro Casamentos e um Funeral’, ‘Bean’, ‘Notting Hill’, ‘O Diário de Bridget Jones’ e realizou ‘Amor Acontece’ e ‘O Barco do Rock’. Falámos com ele na passadeira vermelha, na antestreia do filme.
Como é que Steven Spielberg o convenceu a juntar-se a este filme?
Bem, vamos “levar” de volta essa pergunta para si. Se o Steven Spielberg fosse ter consigo e dissesse 'Gostarias de escrever um filme para mim?'... A resposta foi fácil. Mas quando ele me perguntou, ainda pedi duas semanas para ver se conseguia fazer bem o trabalho, porque o que eu não queria mesmo era fazer um filme com o Steven e estragá-lo.
Bem, vamos “levar” de volta essa pergunta para si. Se o Steven Spielberg fosse ter consigo e dissesse 'Gostarias de escrever um filme para mim?'... A resposta foi fácil. Mas quando ele me perguntou, ainda pedi duas semanas para ver se conseguia fazer bem o trabalho, porque o que eu não queria mesmo era fazer um filme com o Steven e estragá-lo.
Qual foi a sua contribuição para o guião?
O grande trabalho que o Steven quis que eu fizesse, por ser uma grande história e os cavalos ocupam grande parte dela, é ter a certeza que todos os seres humanos tinham vidas credíveis e completas, em vez de apenas fazerem o que tinham de fazer ao pé dos cavalos. Ele pediu-me isto por causa do filme 'Amor Acontece' onde tive de contar histórias muito depressa sobre grupos de pessoas, o meu trabalho foi acrescentar detalhes a todos os personagens.
Ele intervém muito?
O que acontece é que ele é brilhante como parceiro de trabalho, porque é tão fértil e frutuoso. Eu diria que devia de acontecer isto às personagens, e ele dizia, essa é uma boa ideia, e que tal estas sete outras ideias. E eu simplesmente escolhia a melhor e fingia que era minha (risos).
Reescreveu muito durante a filmagem?
Não, eu não fiz muito disso. Estava a fazer outros trabalhos. De vez em quando ia lá para me tirarem a minha fotografia, graças a ele.
Havia pressão para tornar o filme divertido?
Não, o meu trabalho era tentar fazer o filme minimamente divertido sempre que podia. O Steven quis que desse esse contributo.
Quais são os seus novos projectos?
Estou a realizar um filme este ano sobre viagens no tempo. É sobre pessoas que usam as viagens no tempo como se fosse um meio de transporte normal.
O grande trabalho que o Steven quis que eu fizesse, por ser uma grande história e os cavalos ocupam grande parte dela, é ter a certeza que todos os seres humanos tinham vidas credíveis e completas, em vez de apenas fazerem o que tinham de fazer ao pé dos cavalos. Ele pediu-me isto por causa do filme 'Amor Acontece' onde tive de contar histórias muito depressa sobre grupos de pessoas, o meu trabalho foi acrescentar detalhes a todos os personagens.
Ele intervém muito?
O que acontece é que ele é brilhante como parceiro de trabalho, porque é tão fértil e frutuoso. Eu diria que devia de acontecer isto às personagens, e ele dizia, essa é uma boa ideia, e que tal estas sete outras ideias. E eu simplesmente escolhia a melhor e fingia que era minha (risos).
Reescreveu muito durante a filmagem?
Não, eu não fiz muito disso. Estava a fazer outros trabalhos. De vez em quando ia lá para me tirarem a minha fotografia, graças a ele.
Havia pressão para tornar o filme divertido?
Não, o meu trabalho era tentar fazer o filme minimamente divertido sempre que podia. O Steven quis que desse esse contributo.
Quais são os seus novos projectos?
Estou a realizar um filme este ano sobre viagens no tempo. É sobre pessoas que usam as viagens no tempo como se fosse um meio de transporte normal.
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Jovem passou da ‘miséria’ para estrela de filme de Spielberg
Uma nova descoberta: Jeremy Irvine«Não podemos fingir com os cavalos, eles percebem tudo portanto temos de ser autênticos», explica o jovem inglês Jeremy Irvine, 21 anos, uma descoberta que Steven Spielberg antevê poder vir a ter um futuro tão risonho como o de Christian Bale (que dirigiu ainda adolescente para o filme Império do Sol e na altura também nunca tinha feito um filme, como o próprio Jeremy). Jeremy explicou-nos que, se não tivesse sido Spielberg e Cavalo de Guerra, teria desistido de ser actor:_«Estive dois anos sem fazer nada, ninguém me queria e eu nem ganhar experiência conseguia». Depois chegou Spielberg. «Vimos centenas de jovens actores para serem Albert, mas ele tinha aquela qualidade que se destaca dos outros.
Jovem passou da ‘miséria’ para estrela de filme de Spielberg
Uma nova descoberta: Jeremy Irvine«Não podemos fingir com os cavalos, eles percebem tudo portanto temos de ser autênticos», explica o jovem inglês Jeremy Irvine, 21 anos, uma descoberta que Steven Spielberg antevê poder vir a ter um futuro tão risonho como o de Christian Bale (que dirigiu ainda adolescente para o filme Império do Sol e na altura também nunca tinha feito um filme, como o próprio Jeremy). Jeremy explicou-nos que, se não tivesse sido Spielberg e Cavalo de Guerra, teria desistido de ser actor:_«Estive dois anos sem fazer nada, ninguém me queria e eu nem ganhar experiência conseguia». Depois chegou Spielberg. «Vimos centenas de jovens actores para serem Albert, mas ele tinha aquela qualidade que se destaca dos outros.
Ninguém tinha aquela sensibilidade e a capacidade de comunicar, mesmo em silêncio», admite Spielberg, que gosta de trabalhar com pessoas sem experiência e autênticas – «o meu trabalho é fazer com que elas sejam elas próprias».
A viver algo com que nunca sonhou, Jeremy admite que Spielberg foi ajuda preciosa e que nunca o esquecerá.
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Dupla britânica levou cavalo Joey para os campos de batalha
Hiddleston e Cumberbatch pela batalhaTom Hiddleston (entrou em ‘Thor’ e ‘Meia-Noite em Paris’) faz de capitão Nicholls, que compra o cavalo Joey para o levar para a guerra. Já Benedict Cumberbatch (entrou em ‘Expiação’ e no recente ‘A Toupeira’) é o major e amigo de Nicholls. Ambos protagonizam a 1ª cena de batalha do filme. Hiddleston admite ter ficado surpreendido pela forma sensível e emocional com Spielberg o dirigiu na batalha, no meio de 120 cavalos e tanta adrenalina. Cumberbatch diz mesmo «ele é um artista na rodagem, sempre a surpreender».
Dupla britânica levou cavalo Joey para os campos de batalha
Hiddleston e Cumberbatch pela batalhaTom Hiddleston (entrou em ‘Thor’ e ‘Meia-Noite em Paris’) faz de capitão Nicholls, que compra o cavalo Joey para o levar para a guerra. Já Benedict Cumberbatch (entrou em ‘Expiação’ e no recente ‘A Toupeira’) é o major e amigo de Nicholls. Ambos protagonizam a 1ª cena de batalha do filme. Hiddleston admite ter ficado surpreendido pela forma sensível e emocional com Spielberg o dirigiu na batalha, no meio de 120 cavalos e tanta adrenalina. Cumberbatch diz mesmo «ele é um artista na rodagem, sempre a surpreender».
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Emily Watson faz de mãe e esposa de dois homens teimosos
Watson vence medo de cavalosÉ uma das actrizes britânicas mais versáteis. Emily Watson (de ‘Ondas de Paixão’, ‘Dragão Vermelho’, ‘Gosford Park’, entre muitos outros) é Rose, a corajosa mãe de Albert que tem de lidar com a teimosia do marido e o amor do filho pelo cavalo Joey. A actriz, que tinha medo de cavalos, ficou emocionada «pela forma como os cavalos trazem ao de cima a humanidade das pessoas no meio da guerra». E revela: «Spielberg apanhou um valente susto ao cair numa das trincheiras cheias de água».
Emily Watson faz de mãe e esposa de dois homens teimosos
Watson vence medo de cavalosÉ uma das actrizes britânicas mais versáteis. Emily Watson (de ‘Ondas de Paixão’, ‘Dragão Vermelho’, ‘Gosford Park’, entre muitos outros) é Rose, a corajosa mãe de Albert que tem de lidar com a teimosia do marido e o amor do filho pelo cavalo Joey. A actriz, que tinha medo de cavalos, ficou emocionada «pela forma como os cavalos trazem ao de cima a humanidade das pessoas no meio da guerra». E revela: «Spielberg apanhou um valente susto ao cair numa das trincheiras cheias de água».
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