"You don’t need to plug a book in, charge it up or replace the batteries". "You can pick one up anywhere in the world and simply open the pages."
Michael Palin, sobre as novas tecnologias e os livros (o que diria a Isabel Coutinho sobre isto?)
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sábado, agosto 22, 2009
in michael palin i trust
"Europe is a much more tangible concept than I thought when I set out. East and west share a heritage and a history going back over centuries. We need to find out more about each other, to learn respect for each other and to do away with the old ideas of Us and Them. The future will be that much more secure if we can all be Us."
Michael Palin, sobre a sua série televisiva de viagens Nova Europa, que está a passar na RTP2 depois da meia noite.
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terça-feira, agosto 18, 2009
john cleese lixado no divórcio
Expedições Monty Python.
John Cleese teve de dar à sua ex-mulher quase 20 milhões de euros como acordo de divórcio. Segundo os amigos de Cleese, o actor ficou com menos do que a sua ex-mulher e ainda terá de pagar durante sete anos 900 mil euros/ano.
John Cleese has reached a £12 million settlement in his acrimonious divorce from his third wife Alyce Faye Eichelberger.
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sexta-feira, novembro 21, 2008
python no youtube
Os Python já têm canal oficial no You Tube. Existe ainda o curioso Pythonline mantido por Eric Idle. A ver.
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sábado, outubro 18, 2008
cleese fala sobre palin (não é o michael)
E o que é que John Cleese tem a dizer sobre a Sarah Palin ser candidata a vice-presidente dos Republicanos às eleições norte-americanas? Simplesmente que o Michael Palin já não é o Palin mais cómico que existe à face da Terra.
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sábado, março 01, 2008
mr terry na fnac em dezembro
Recordar Terry Jones e os Monty Python...
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sábado, janeiro 19, 2008
são luiz, terry jones e lisboa na cnn
LISBON, Portugal (AP) -- Terry Jones giggles as he describes his latest project: vacuum cleaners, dryers and parking meters singing opera on stage. The Monty Python alumnus and an all-Portuguese cast are rehearsing for the Saturday world premiere in Lisbon of "Evil Machines." Jones co-wrote the libretto and is directing.
To make the author's vision real, the singers climb into elaborate costumes, including one that creates a 15-foot-tall vacuum cleaner.
"I just thought it would be great fun to have all these machines singing," Jones said after a recent rehearsal at Lisbon's Sao Luis theater, adding with mischievous glee: "It's something you've never seen before."
The show captures some of the absurdity that was the hallmark of the British comedy troupe Jones co-founded. Almost 40 years on, he retains that offbeat sense of humor.
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sexta-feira, dezembro 14, 2007
a não esquecer
Obrigado ao Nande (e blog das PF) e ao João Paulo Meneses pela referência sobre o encontro entre RAP e Terry Jones.
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sábado, dezembro 08, 2007
the fast road
Terry Jones respira talento interpretativo e narrativo. Jones não se considera um actor, é certo, até porque raramente interpretou textos de outros, mas a verdade é que tanto na voz (versátil) como nas caretas e nos movimentos do corpo, todo ele é um prazer de ver actuar. Nem que seja em algo tão simples, quanto narrar Contos Fantásticos - histórias infantis escritas por ele, mas de alguma forma extremamente interessantes e aliciantes mesmo para todos os adultos que gostam de se sentir inspirados. São histórias simples e fantásticas, repletas de metáforas para situações da vida comum, escritas com um ritmo e timing impressionante. Memorável, mesmo.
Fui ver ontem à noite Contos Fantásticos, no São Luiz, e apesar de ser menos de uma hora de narração muito bem musicada, enche por completo as medidas. A Orquestra Metropolitana de Lisboa, com um divertido convidado especial, o concertino Du Xuan, fazem um belo trabalho (concebido por Luís Tinoco) musical, dando ainda mais emoção e thriller mesmo aos três contos que Terry Jones vai contando: A Estrada Rápida, Três Pingos de Chuva e Tomás e o Dinossauro.
Jones é, provavelmente o Python com a carreira mais versátil e diversificada, de obras académicas sobre Chaucer e a Idade Média, à escrita de contos infantis, de peças de teatro, de filmes. É ainda actor dos seus textos, realizador, encenador, narrador, contador de histórias, you name it! Jorra talento.

PS: No final, quando todos batiam palmas, um homem levantou-se da sua cadeira (não para aplaudir, mas porque lhe apeteceu) e um velhote que estava atrás dele pediu-lhe para se baixar, que não conseguia ver o palco. O homem sentou-se danado e começou a insultar o velhote, dizendo que a peça já tinha terminado e não tinha nada de sentar-se. Entretanto as luzes do teatro acenderam-se e o cretino continuou a insultar veemente o velhote que estava com a mulher. Há pessoas muito cretinas! Se não sabem respeitar os outros, mais vale não sairem de casa.
PS2: À saída do teatro (onde estava o director das PF, Nuno Artur Silva, reparei que estavam edições do Destak Fim de Semana na mesa com material informativo. Ainda bem. Bem apropriado, já que a capa é RAP e Terry Jones. Ontem, ao final da tarde, passei de carro pela Praça de Espanha, estavam a distribuir o jornal Fim de Semana. O distribuidor, esperto, mostrava a capa com RAP e Terry Jones aos automobilistas. Ao verem a capa todos pediam o jornal. Mais curioso foi ver muitos a não ficarem satisfeitos com um exemplar, e pedirem aos distribuidores mais do que um. Dá-me uma certa satisfação pessoal ter visto isto.
Fui ver ontem à noite Contos Fantásticos, no São Luiz, e apesar de ser menos de uma hora de narração muito bem musicada, enche por completo as medidas. A Orquestra Metropolitana de Lisboa, com um divertido convidado especial, o concertino Du Xuan, fazem um belo trabalho (concebido por Luís Tinoco) musical, dando ainda mais emoção e thriller mesmo aos três contos que Terry Jones vai contando: A Estrada Rápida, Três Pingos de Chuva e Tomás e o Dinossauro.
Jones é, provavelmente o Python com a carreira mais versátil e diversificada, de obras académicas sobre Chaucer e a Idade Média, à escrita de contos infantis, de peças de teatro, de filmes. É ainda actor dos seus textos, realizador, encenador, narrador, contador de histórias, you name it! Jorra talento.

PS: No final, quando todos batiam palmas, um homem levantou-se da sua cadeira (não para aplaudir, mas porque lhe apeteceu) e um velhote que estava atrás dele pediu-lhe para se baixar, que não conseguia ver o palco. O homem sentou-se danado e começou a insultar o velhote, dizendo que a peça já tinha terminado e não tinha nada de sentar-se. Entretanto as luzes do teatro acenderam-se e o cretino continuou a insultar veemente o velhote que estava com a mulher. Há pessoas muito cretinas! Se não sabem respeitar os outros, mais vale não sairem de casa.
PS2: À saída do teatro (onde estava o director das PF, Nuno Artur Silva, reparei que estavam edições do Destak Fim de Semana na mesa com material informativo. Ainda bem. Bem apropriado, já que a capa é RAP e Terry Jones. Ontem, ao final da tarde, passei de carro pela Praça de Espanha, estavam a distribuir o jornal Fim de Semana. O distribuidor, esperto, mostrava a capa com RAP e Terry Jones aos automobilistas. Ao verem a capa todos pediam o jornal. Mais curioso foi ver muitos a não ficarem satisfeitos com um exemplar, e pedirem aos distribuidores mais do que um. Dá-me uma certa satisfação pessoal ter visto isto.
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sexta-feira, dezembro 07, 2007
and now... for something completely different
E Agora Algo Completamente Diferente
Ideia, organização e textos João Tomé
Fotos João Cortesão
Um foi membro fundador dos Monty Python (o grupo de guionistas/humoristas mais famoso do planeta), e em que desempenhava invariavelmente o papel de velhota. Além disso escreveu argumentos, realizou filmes e documentários, publicou livros infantis, sendo responsável por comentários políticos e históricos.
O outro é membro fundador dos Gato Fedorento (grupo de guionistas/humoristas nacionais mais famoso do país) e imitador de eleição de todas as personalidades da nossa praça, a que soma a literatura, crónicas na revista Visão, participação em livros, discos, blogues, stand up.
O “um” é Terry Jones, 65 anos. O “outro” é Ricardo Araújo Pereira, 34 anos. E se o “outro” tivesse a oportunidade de entrevistar o “um”? Foi esse o desafio feito por mim (para o jornal cultural do Destak, Fim de Semana) a Ricardo Araújo Pereira. O conhecido «guionista que interpreta os seus próprios textos cómicos», como o próprio se define, aceitou o repto!
O encontro deu-se no Teatro São Luiz, terça-feira, minutos depois de Mr Jones (como eu e o RAP tratámos o ex-Python) ter terminado os ensaios da peça que irá estrear por cá a 12 de Janeiro - Nuno Markl (que faz o prefácio da fabulosa autobiografia do Python e traduziu a peça Os Melhores Sketches dos Monty Python) também esteve para aparecer, mas acabou por não poder.
Feitas as apresentações, foi um Ricardo (RAP) nervoso que explicou como os Gato Fedorento começaram, como guionistas, e acabaram por ter um sucesso «repentino», «doido mesmo».
Para “quebrar o gelo”, Ricardo fez algumas perguntas antes de começar a entrevista. Mr. Jones foi-lhe contando que ficará em Portugal até à estreia da peça, passando inclusive o Natal e a passagem do ano por cá, «uma forma de fugir ao frio de Londres». Depois, as perguntas de Ricardo começaram a disparar, e Mr. Jones, sempre disponível, divertido e intenso, não desapontou. O espaço que se segue, é da inteira responsabilidade dos intervenientes (e ainda bem que assim é). E Agora Algo Completamente Diferente...
--




RICARDO ARAÚJO PEREIRA
entrevista TERRY JONES
(para quem tiver coragem, seguem-se 14 mil caracteres de uma conversa - eram inicialmente 17 mil. Está ainda num estado semi-bruto, mas é a versão mais completa disponível)
Acredito que lhe vou fazer perguntas que já lhe foram feitas um milhão de vezes… desculpe…
Isso até torna tudo mais fácil (risos).
Como começou o seu interesse na comédia?
Sempre tive interesse. A maior parte dos miúdos gostam... Adoram ser tontos e fazer coisas divertidas. Lembro-me da minha piada mais antiga. Acho que foi antes de saber falar. Estávamos em Gales, tínhamos acabado de comer e a minha avó perguntou se alguém queria sobremesa. E eu, esperto, em vez de passar o meu prato, passei o toalhete da mesa e a minha avó colocou a sobremesa sobre o toalhete. E eu pensei: ‘a piada resultou’ (risos), por isso, luzes e música para mim. Em vez disso, todos se viraram para mim e disseram: ‘porque fizeste isso rapaz tonto?’ Foi aí que percebi que a comédia também era complicada, algo perigoso. Acho que os miúdos gostam de comédia, mas acaba por ser extraído de nós à “pancada”, apenas temos sorte que tenha sobrevivido em nós.
Li muito sobre os Monty Python, como grupo, e como se juntaram. Todos escreveram para outros programas antes dos Python. E estiveram em Oxford juntos…
O Mike [Michael] Palin e eu fomos para Oxford, o John Cleese, Eric Idle e Graham Chapman estavam em Cambridge. O Terry Gilliam estava numa universidade chamada Occidental, nos Estados Unidos.
Há uma rivalidade entre Oxford e Cambridge?
Sim! E é curioso porque chegámos à conclusão, que sempre que não estávamos de acordo sobre algo que tinha piada ou não, a divisão era sempre entre os que tinham andado em Cambridge e os de Oxford. Terry Gilliam alinhava sempre pelos de Oxford, então havia um empate, 3-3. Outra coisa estranha que me lembro é que, quando nos juntávamos e estávamos ali sentados, à espera que o último dos Python chegasse, acabávamos por esperar mesmo quando já estavam os seis… (risos) estávamos sempre à espera de um dos Python.
Alguns de vocês já se conheciam antes dos Python. Conhecia o Michael Palin. Na altura estudava Literatura Inglesa. Tem um livro sobre o Chaucer [considerado o pai da literatura inglesa], não é?
Tenho dois dele. Porque fiz um há quatro anos outro chamado Who Murdered Chaucer. É mais sobre a situação política no século XV, sobre o facto de não sabermos o que aconteceu ao Chaucer. Simplesmente desapareceu, não há nenhum registo da sua morte, nada. Sempre pensei que era um bocado estranho, um homem tão famoso e não se saber quando morreu. Poderia haver uma relação com o facto de Richard II, que era suposto ser o patrono de Chaucer, ter sido assassinado por Henry IV. E o Chaucer desaparece dois meses depois... Explorei essa relação.

Ok, irei comprá-lo então (risos).
A tradução portuguesa irá demorar a sair.
Mas eu compro-o no Amazon, o meu inglês não é muito bom, mas leio bem… O que me intriga é como é que seis pessoas que não se conhecem, juntam-se e criam algo com uma identidade tão forte?
O engraçado é que sempre achámos que íamos fazer algo de diferente e que o programa não tinha nenhuma identidade. Tentámos surpreender sempre as pessoas, para nunca saberem sobre o que é que o programa ia ser. Python ou Pythonic faz agora parte do dicionário inglês. Isso demonstra o quanto falhámos no que tentámos fazer (risos). Quisémos fazer sempre tudo totalmente novo. Tentámos desesperadamente por não ter nenhuma forma, bem, alguma forma mas nenhuma identidade discernível, mas obviamente falhámos (risos).
Completamente! Então não havia nenhum conceito pré-estabelecido. Não havia uma espécie de carta de princípios…
Nem por isso… a história é que a BBC ofereceu ao John Cleese uma série de televisão. E acho que ele queria trabalhar com o Mike Palin. E o Mike, eu e o Eric Idle tínhamos feito um programa de crianças, chamado Do Not Adjust Your Set...
Está agora em DVD…
Pois é, é incrível, tinham-nos dito que tinham sido destruídos… Mas, continuando, fomos à BBC e aqueles homens de fato, sentados à volta da mesa perguntavam ‘Sobre o que é que será o programa’. E nós dissemos: ‘não sabemos propriamente’. E eles: ‘a quem é que será dirigido?’. Nós dissemos: ‘não sabemos’. E eles dizem: ‘terá música?’. E nós… ‘não sabemos’ (risos). ‘E como se chamará?’, dizem eles, e nós… ‘não sabemos’. Ao que eles responderam com o seu ar sério: ‘então só vos podemos dar 13 episódios’. (risos). Hoje isto era impossível mas na BBC, em 68/69, acontecia.

Aconteceu uns trazerem um sketch e os outros dizerem que não servia, por não ser Python?
Não, porque não tínhamos um conceito sobre o que era Python. Todos achámos que íamos escrever o material mais divertido. Antes de nos juntarmos, nós já achámos que o material do John Cleese e o Graham Chapman, que tínhamos visto noutros programas, era o mais cómico da altura. E suponho que eles achassem o mesmo sobre mim e o Mike. Estávamos bastante confiantes que íamos escrever coisas com piada, mas não tinhamos um conceito do programa.
Achei que devíamos ter uma espécie de conceito foi ao ver o Spike Milligan, que fazia um programa chamado Q4. Lembro de o ver e pensar ‘Merda, ele conseguiu! Quebrou as fronteiras da comédia’. Até áquele ponto fazíamos sketches de três minutos com princípio, meio e fim. Ou então de 30 segundos. E o Spike começou a fazer estes sketches que começavam de uma forma e depois, de repente, tornavam-se noutra coisa... sem qualquer forma. Ele mostrou-nos que nós escrevíamos cliches. Lembrei-me, na altura, que o Terry Gilliam tinha feito uma animação para o programa infantil Do Not Adjust Your Set muito diferente do habitual, que pretendia mudar consciências. Achei que se casássemos o que o Milligan tinha feito e os sketches do Gilliam teríamos a estrutura para um programa completo. Liguei ao Terry e ao Mike Palin e eles gostaram logo da ideia. Quando nos encontrámos todos, os outros não estavam de acordo e na primeira temporada houve uma espécie de luta, para tentar pôr aquilo funcionar. Só na segunda temporada todos perceberam que era um bom caminho.
Ao ler o livro Monty Python Speaks, percebemos que Mr Jones era o mais preocupado com o aspecto e a forma do programa Flying Circus…
Sim… era o que me preocupava mais com a forma do que fazíamos naquela altura.
Recordo-me de dizer que gostava do Buster Keaton, porque era comédia, mas era…
Lindo! Exactamente. E ele fazia algo especial com a estrutura. O Charlie Chaplin também o faz, mas eu não gosto do Chaplin…
Não?!
Quer dizer, gosto dele… mas não gosto dele como pessoa. Ele queria tudo. Que as pessoas se rissem dele, que o admirassem, que o achassem maravilhoso. Acho que não era tão generoso quanto o Buster Keaton. O Keaton dá gargalhadas aos outros. Nos filmes do Chaplin só o Chaplin é que pode dar gargalhadas.
Nunca tinha reparado nisso. Mr Jones tem muitos talentos e interesses. De entre todas essas coisas que fez, acaba por se considerar um actor?
Não, nem por isso. Acho que a escrita é o que vem primeiro, foi o que sempre quis fazer. Embora, tenha um ensaio que escrevi quando tinha sete anos, a minha avó guardou-o. Lá eu dizia ‘eu espero [escreveu mal “espero”, utilizando uma palavra que significa saltar: hopping] vir ser actor’. Então ainda estou a hopping… (risos) Nunca me vi como um actor. Nunca fiz nenhuma interpretação na verdade, fiz papéis de coisas que escrevi.

Recorda-se (claro que se recorda), qual foi o impacto da série tanto na altura como mais tarde?
Não notámos nenhum impacto na altura. Fizemos quatro programas e perguntávamo-nos se alguém via aquelas coisas. Foi só por volta do quinto ou sexto programa que os produtores disseram que tinham chegado muitas cartas de miúdos, de escolas (isto de um programa que passava por volta das 22h30). Esse foi o primeiro feedback. E, no final da primeira temporada, houve umas primeiras críticas de imprensa. Na altura era muito questionável que a BBC quisesse mais uma temporada. Acabaram por querer, mas não havia certezas. Quando fizemos a segunda temporada, as pessoas costumavam dizer que era divertido, mas não era tão bom quanto a primeira temporada. Na terceira série, as pessoas diziam que não era tão bom quanto a segunda. E, quando fizemos o The Holy Graal foi um desastre inacreditável. Fizemos uma primeira mostra para investidores e empresários, nos primeiros cinco minutos houve risos, mas depois… nada. Silêncio absoluto, até ao fim. E nós pensámos que não podia ser assim tão mau. Um dos produtores disse que já sabia que ia ser um desastre.
Entrámos em pânico. Nós tínhamos feito um filme antes para a televisão, chamado E Agora Algo Completamente Diferente. E ninguém se tinha rido nas apresentações de uma cena de luta num bar que tinha gerado gargalhadas em estúdio. Percebemos que era a música que estava a estragar o timing, então tirámos e resultou. Fiz a mesma coisa em The Holy Graal e resultou! Tirei a música quando começavam as falas e os risos voltaram.
Isso é incrível!
Ideia, organização e textos João Tomé
Fotos João Cortesão
Um foi membro fundador dos Monty Python (o grupo de guionistas/humoristas mais famoso do planeta), e em que desempenhava invariavelmente o papel de velhota. Além disso escreveu argumentos, realizou filmes e documentários, publicou livros infantis, sendo responsável por comentários políticos e históricos.
O outro é membro fundador dos Gato Fedorento (grupo de guionistas/humoristas nacionais mais famoso do país) e imitador de eleição de todas as personalidades da nossa praça, a que soma a literatura, crónicas na revista Visão, participação em livros, discos, blogues, stand up.
O “um” é Terry Jones, 65 anos. O “outro” é Ricardo Araújo Pereira, 34 anos. E se o “outro” tivesse a oportunidade de entrevistar o “um”? Foi esse o desafio feito por mim (para o jornal cultural do Destak, Fim de Semana) a Ricardo Araújo Pereira. O conhecido «guionista que interpreta os seus próprios textos cómicos», como o próprio se define, aceitou o repto!
O encontro deu-se no Teatro São Luiz, terça-feira, minutos depois de Mr Jones (como eu e o RAP tratámos o ex-Python) ter terminado os ensaios da peça que irá estrear por cá a 12 de Janeiro - Nuno Markl (que faz o prefácio da fabulosa autobiografia do Python e traduziu a peça Os Melhores Sketches dos Monty Python) também esteve para aparecer, mas acabou por não poder.
Feitas as apresentações, foi um Ricardo (RAP) nervoso que explicou como os Gato Fedorento começaram, como guionistas, e acabaram por ter um sucesso «repentino», «doido mesmo».
Para “quebrar o gelo”, Ricardo fez algumas perguntas antes de começar a entrevista. Mr. Jones foi-lhe contando que ficará em Portugal até à estreia da peça, passando inclusive o Natal e a passagem do ano por cá, «uma forma de fugir ao frio de Londres». Depois, as perguntas de Ricardo começaram a disparar, e Mr. Jones, sempre disponível, divertido e intenso, não desapontou. O espaço que se segue, é da inteira responsabilidade dos intervenientes (e ainda bem que assim é). E Agora Algo Completamente Diferente...
--
RICARDO ARAÚJO PEREIRA
entrevista TERRY JONES
(para quem tiver coragem, seguem-se 14 mil caracteres de uma conversa - eram inicialmente 17 mil. Está ainda num estado semi-bruto, mas é a versão mais completa disponível)
Acredito que lhe vou fazer perguntas que já lhe foram feitas um milhão de vezes… desculpe…
Isso até torna tudo mais fácil (risos).
Como começou o seu interesse na comédia?
Sempre tive interesse. A maior parte dos miúdos gostam... Adoram ser tontos e fazer coisas divertidas. Lembro-me da minha piada mais antiga. Acho que foi antes de saber falar. Estávamos em Gales, tínhamos acabado de comer e a minha avó perguntou se alguém queria sobremesa. E eu, esperto, em vez de passar o meu prato, passei o toalhete da mesa e a minha avó colocou a sobremesa sobre o toalhete. E eu pensei: ‘a piada resultou’ (risos), por isso, luzes e música para mim. Em vez disso, todos se viraram para mim e disseram: ‘porque fizeste isso rapaz tonto?’ Foi aí que percebi que a comédia também era complicada, algo perigoso. Acho que os miúdos gostam de comédia, mas acaba por ser extraído de nós à “pancada”, apenas temos sorte que tenha sobrevivido em nós.
Li muito sobre os Monty Python, como grupo, e como se juntaram. Todos escreveram para outros programas antes dos Python. E estiveram em Oxford juntos…
O Mike [Michael] Palin e eu fomos para Oxford, o John Cleese, Eric Idle e Graham Chapman estavam em Cambridge. O Terry Gilliam estava numa universidade chamada Occidental, nos Estados Unidos.
Há uma rivalidade entre Oxford e Cambridge?
Sim! E é curioso porque chegámos à conclusão, que sempre que não estávamos de acordo sobre algo que tinha piada ou não, a divisão era sempre entre os que tinham andado em Cambridge e os de Oxford. Terry Gilliam alinhava sempre pelos de Oxford, então havia um empate, 3-3. Outra coisa estranha que me lembro é que, quando nos juntávamos e estávamos ali sentados, à espera que o último dos Python chegasse, acabávamos por esperar mesmo quando já estavam os seis… (risos) estávamos sempre à espera de um dos Python.
Alguns de vocês já se conheciam antes dos Python. Conhecia o Michael Palin. Na altura estudava Literatura Inglesa. Tem um livro sobre o Chaucer [considerado o pai da literatura inglesa], não é?
Tenho dois dele. Porque fiz um há quatro anos outro chamado Who Murdered Chaucer. É mais sobre a situação política no século XV, sobre o facto de não sabermos o que aconteceu ao Chaucer. Simplesmente desapareceu, não há nenhum registo da sua morte, nada. Sempre pensei que era um bocado estranho, um homem tão famoso e não se saber quando morreu. Poderia haver uma relação com o facto de Richard II, que era suposto ser o patrono de Chaucer, ter sido assassinado por Henry IV. E o Chaucer desaparece dois meses depois... Explorei essa relação.
Ok, irei comprá-lo então (risos).
A tradução portuguesa irá demorar a sair.
Mas eu compro-o no Amazon, o meu inglês não é muito bom, mas leio bem… O que me intriga é como é que seis pessoas que não se conhecem, juntam-se e criam algo com uma identidade tão forte?
O engraçado é que sempre achámos que íamos fazer algo de diferente e que o programa não tinha nenhuma identidade. Tentámos surpreender sempre as pessoas, para nunca saberem sobre o que é que o programa ia ser. Python ou Pythonic faz agora parte do dicionário inglês. Isso demonstra o quanto falhámos no que tentámos fazer (risos). Quisémos fazer sempre tudo totalmente novo. Tentámos desesperadamente por não ter nenhuma forma, bem, alguma forma mas nenhuma identidade discernível, mas obviamente falhámos (risos).
Completamente! Então não havia nenhum conceito pré-estabelecido. Não havia uma espécie de carta de princípios…
Nem por isso… a história é que a BBC ofereceu ao John Cleese uma série de televisão. E acho que ele queria trabalhar com o Mike Palin. E o Mike, eu e o Eric Idle tínhamos feito um programa de crianças, chamado Do Not Adjust Your Set...
Está agora em DVD…
Pois é, é incrível, tinham-nos dito que tinham sido destruídos… Mas, continuando, fomos à BBC e aqueles homens de fato, sentados à volta da mesa perguntavam ‘Sobre o que é que será o programa’. E nós dissemos: ‘não sabemos propriamente’. E eles: ‘a quem é que será dirigido?’. Nós dissemos: ‘não sabemos’. E eles dizem: ‘terá música?’. E nós… ‘não sabemos’ (risos). ‘E como se chamará?’, dizem eles, e nós… ‘não sabemos’. Ao que eles responderam com o seu ar sério: ‘então só vos podemos dar 13 episódios’. (risos). Hoje isto era impossível mas na BBC, em 68/69, acontecia.
Aconteceu uns trazerem um sketch e os outros dizerem que não servia, por não ser Python?
Não, porque não tínhamos um conceito sobre o que era Python. Todos achámos que íamos escrever o material mais divertido. Antes de nos juntarmos, nós já achámos que o material do John Cleese e o Graham Chapman, que tínhamos visto noutros programas, era o mais cómico da altura. E suponho que eles achassem o mesmo sobre mim e o Mike. Estávamos bastante confiantes que íamos escrever coisas com piada, mas não tinhamos um conceito do programa.
Achei que devíamos ter uma espécie de conceito foi ao ver o Spike Milligan, que fazia um programa chamado Q4. Lembro de o ver e pensar ‘Merda, ele conseguiu! Quebrou as fronteiras da comédia’. Até áquele ponto fazíamos sketches de três minutos com princípio, meio e fim. Ou então de 30 segundos. E o Spike começou a fazer estes sketches que começavam de uma forma e depois, de repente, tornavam-se noutra coisa... sem qualquer forma. Ele mostrou-nos que nós escrevíamos cliches. Lembrei-me, na altura, que o Terry Gilliam tinha feito uma animação para o programa infantil Do Not Adjust Your Set muito diferente do habitual, que pretendia mudar consciências. Achei que se casássemos o que o Milligan tinha feito e os sketches do Gilliam teríamos a estrutura para um programa completo. Liguei ao Terry e ao Mike Palin e eles gostaram logo da ideia. Quando nos encontrámos todos, os outros não estavam de acordo e na primeira temporada houve uma espécie de luta, para tentar pôr aquilo funcionar. Só na segunda temporada todos perceberam que era um bom caminho.
Ao ler o livro Monty Python Speaks, percebemos que Mr Jones era o mais preocupado com o aspecto e a forma do programa Flying Circus…
Sim… era o que me preocupava mais com a forma do que fazíamos naquela altura.
Recordo-me de dizer que gostava do Buster Keaton, porque era comédia, mas era…
Lindo! Exactamente. E ele fazia algo especial com a estrutura. O Charlie Chaplin também o faz, mas eu não gosto do Chaplin…
Não?!
Quer dizer, gosto dele… mas não gosto dele como pessoa. Ele queria tudo. Que as pessoas se rissem dele, que o admirassem, que o achassem maravilhoso. Acho que não era tão generoso quanto o Buster Keaton. O Keaton dá gargalhadas aos outros. Nos filmes do Chaplin só o Chaplin é que pode dar gargalhadas.
Nunca tinha reparado nisso. Mr Jones tem muitos talentos e interesses. De entre todas essas coisas que fez, acaba por se considerar um actor?
Não, nem por isso. Acho que a escrita é o que vem primeiro, foi o que sempre quis fazer. Embora, tenha um ensaio que escrevi quando tinha sete anos, a minha avó guardou-o. Lá eu dizia ‘eu espero [escreveu mal “espero”, utilizando uma palavra que significa saltar: hopping] vir ser actor’. Então ainda estou a hopping… (risos) Nunca me vi como um actor. Nunca fiz nenhuma interpretação na verdade, fiz papéis de coisas que escrevi.
Recorda-se (claro que se recorda), qual foi o impacto da série tanto na altura como mais tarde?
Não notámos nenhum impacto na altura. Fizemos quatro programas e perguntávamo-nos se alguém via aquelas coisas. Foi só por volta do quinto ou sexto programa que os produtores disseram que tinham chegado muitas cartas de miúdos, de escolas (isto de um programa que passava por volta das 22h30). Esse foi o primeiro feedback. E, no final da primeira temporada, houve umas primeiras críticas de imprensa. Na altura era muito questionável que a BBC quisesse mais uma temporada. Acabaram por querer, mas não havia certezas. Quando fizemos a segunda temporada, as pessoas costumavam dizer que era divertido, mas não era tão bom quanto a primeira temporada. Na terceira série, as pessoas diziam que não era tão bom quanto a segunda. E, quando fizemos o The Holy Graal foi um desastre inacreditável. Fizemos uma primeira mostra para investidores e empresários, nos primeiros cinco minutos houve risos, mas depois… nada. Silêncio absoluto, até ao fim. E nós pensámos que não podia ser assim tão mau. Um dos produtores disse que já sabia que ia ser um desastre.
Entrámos em pânico. Nós tínhamos feito um filme antes para a televisão, chamado E Agora Algo Completamente Diferente. E ninguém se tinha rido nas apresentações de uma cena de luta num bar que tinha gerado gargalhadas em estúdio. Percebemos que era a música que estava a estragar o timing, então tirámos e resultou. Fiz a mesma coisa em The Holy Graal e resultou! Tirei a música quando começavam as falas e os risos voltaram.
Isso é incrível!
Quando é que começou a ser uma superstar?
Só muito recentemente! É muito estranho, na verdade. É como uma bolha, que cresceu. Parece muito maior nos últimos 10/15 anos do que na altura em que o estávamos a fazer.
A sério?! Falou do Spike Milligan. Não falou dele como influência... mas tinham influências?
Ele não era propriamente uma influência, mas tinha estado presente. Seguiamos-o especialmente quando ele estava a fazer o programa The Goon Show, na rádio. Todos ouvíamos quando éramos miúdos. Eu pensava que era óptimo que os Python fossem tão bons quando o The Goon Show, com tanto livre arbítrio e tanta imaginação. De alguma forma achava triste estarmos na televisão. Tentámos fazer, em parte, The Goon Show em versão televisiva, suponho. Esse programa tinha personagens recorrentes que apareciam sempre. O que nós não fazíamos nos Python.
Sempre me perguntei se alguém como Edward Lear [autor inglês especialista em nonsense] foi uma influência...
Sim, suponho que talvez tenha sido na parte de nonsense. Mas nunca gostei muito do Edward Lear, sempre quis gostar... (risos) mas não conseguia passar do ‘não está mal’.
Como escolhia os temas dos filmes? Tem História, religião e o Significado da Vida...
The Holy Graal veio à baila por causa que o Mike tinha escrito um texto sobre o Rei Artur e algo sobre cocos e achámos todos que estava muito cómico. Não sabíamos como íamos fazer aquilo, mas achámos que era um início divertido. Depois dissemos, ‘vamos fazer os contos do Rei Artur’. Mas o primeiro guião estava dividido entre tempos modernos e medievais. Nessa altura andava, à noite, na Biblioteca inglesa, a pesquisar para o meu livro sobre o Chaucer, por isso estava embrenhado na Idade Média. Achei que devíamos fazer tudo na Idade Média. O primeiro guião tinha um fim em que eles encontram o Santo Graal nos Harrods, por ser uma loja que tem tudo (risos). E, para minha surpresa, todos concordaram. Depois, na Vida de Brian eu não estava lá. Acho que ainda estava a editar The Holy Graal, enquanto os outros andavam a promovê-lo. Eles estavam em Amesterdão e o Eric [Idle], disse ‘porque não fazer algo do tipo: ‘A luxúria de Jesus Cristo pela glória’. Todos acharam boa ideia. Quando ouvi que eles queriam fazê-lo e a ideia era um filme bíblico, fiquei um pouco desapontado. Pensei que o guarda-roupa ia ser tão secante.
The Meaning of Life quase que não se concretizou. Tínhamos ido para os Barbados para fazer A Vida de Brian, durante duas semanas.
Deve ter sido estupendo...
Bem, por um lado foi mas naqueles tempos não tínhamos telemóveis, então toda a gente parava quando queria usar o telefone. O John [Cleese] dizia várias vezes, ‘tenho de me ir embora, tenho uma reunião com o meu contabilista’ (risos). Então decidimos ir à Jamaica para The Meaning the Life. Tinhamos um rascunho do guião e era um pouco como um dos filmes de Buñuel em que se estava sempre a acordar de um sonho, algo circular. Todos lemos no avião, a ir para casa e achámos que não resultava. E voltámos à estaca zero. Lembro-me de acordar com um aperto no estômago que tinha desde os exames da escola. E pensei: ‘merda, isto não vai acontecer, é desastroso’. Essa manhã percorri o guião todo, com marcações feitas por uma rapariga que trabalhava connosco e percebi que tínhamos 17 minutos de material que achávamos fantástico. Não precisávamos de muito mais. Nesse pequeno-almoço o Mike Palin disse que tinha uma sugestão e eu também tinha. O Mike disse: ‘vamos reduzir as nossas perdas, voltar a casa e transformá-lo numa série de televisão’. Eu disse: ‘porque é que nos estamos a preocupar? Pelas marcações temos 17 minutos de bom material só precisamos de mais 20 minutos. Ainda sinto que é uma história de vida...’ De repente todos pegaram na ideia e o Eric [Idle] disse que poderia ser O Sentido da Vida. Apenas as sete idades do Homem. Uff. Tudo resolvido ao pequeno-almoço.
O processo de escrita nos filmes foi diferente do programa de sketches, não?
Bem, nem por isso. Ainda fazíamos cena a cena. Até na Vida de Brian. Apenas tentámos escrever cenas divertidas.
Com as mesmas equipas? Você e o Michael Palin...
Sim, mas no Sentido da Vida acho que o John estava tão farto de trabalhar com o Graham [Chapman], por isso, houve trocas. Nada de chocante, na verdade.
Esteve envolvido em Spamalot?
Nem por isso. Foi mesmo o Eric Idle. Vi-o umas duas vezes. Acho que tem coisas muito cómicas, mas não acho que seja Python.
Ah não?! Isso é interessante.
É muito mais Eric do que Python. É muito amplo no tema, enquanto Python nunca era tão amplo. Por isso acho que tem um appeal mais global que os Python. A verdade é que os Monty Python nunca tiveram uma audiência enorme. Teve sempre um público muito fiel, mas era algo minoritária. Acho que o máximo que tivemos foi 6 milhões… e isso foi no tempo em que só havia três canais e havia, às vezes, 20 milhões a verem programas de comédia. Sempre foi mais de minorias e felizmente nos Estados Unidos, uma minoria é algo enorme (risos)! Foi aí que tivemos sorte. A maior parte das pessoas não gosta de Python (risos).
Bem, não é bem essa a minha percepção...
Mas se olharmos para a demografia de quem gosta dos Python é sempre uma minoria, mas de alguma forma Spamalot alargou mais o espectro.
Os seus sucessores, chamemos-lhe isso, como Not The Nine O'Clock News [obrigado Nande] tinham um sketch com Jesus Cristo. Era como uma inversão do vosso debate em A Vida de Brian. Ainda há uma série chamada Big Train...
Nunca vejo televisão
Só muito recentemente! É muito estranho, na verdade. É como uma bolha, que cresceu. Parece muito maior nos últimos 10/15 anos do que na altura em que o estávamos a fazer.
A sério?! Falou do Spike Milligan. Não falou dele como influência... mas tinham influências?
Ele não era propriamente uma influência, mas tinha estado presente. Seguiamos-o especialmente quando ele estava a fazer o programa The Goon Show, na rádio. Todos ouvíamos quando éramos miúdos. Eu pensava que era óptimo que os Python fossem tão bons quando o The Goon Show, com tanto livre arbítrio e tanta imaginação. De alguma forma achava triste estarmos na televisão. Tentámos fazer, em parte, The Goon Show em versão televisiva, suponho. Esse programa tinha personagens recorrentes que apareciam sempre. O que nós não fazíamos nos Python.
Sempre me perguntei se alguém como Edward Lear [autor inglês especialista em nonsense] foi uma influência...
Sim, suponho que talvez tenha sido na parte de nonsense. Mas nunca gostei muito do Edward Lear, sempre quis gostar... (risos) mas não conseguia passar do ‘não está mal’.
Como escolhia os temas dos filmes? Tem História, religião e o Significado da Vida...
The Holy Graal veio à baila por causa que o Mike tinha escrito um texto sobre o Rei Artur e algo sobre cocos e achámos todos que estava muito cómico. Não sabíamos como íamos fazer aquilo, mas achámos que era um início divertido. Depois dissemos, ‘vamos fazer os contos do Rei Artur’. Mas o primeiro guião estava dividido entre tempos modernos e medievais. Nessa altura andava, à noite, na Biblioteca inglesa, a pesquisar para o meu livro sobre o Chaucer, por isso estava embrenhado na Idade Média. Achei que devíamos fazer tudo na Idade Média. O primeiro guião tinha um fim em que eles encontram o Santo Graal nos Harrods, por ser uma loja que tem tudo (risos). E, para minha surpresa, todos concordaram. Depois, na Vida de Brian eu não estava lá. Acho que ainda estava a editar The Holy Graal, enquanto os outros andavam a promovê-lo. Eles estavam em Amesterdão e o Eric [Idle], disse ‘porque não fazer algo do tipo: ‘A luxúria de Jesus Cristo pela glória’. Todos acharam boa ideia. Quando ouvi que eles queriam fazê-lo e a ideia era um filme bíblico, fiquei um pouco desapontado. Pensei que o guarda-roupa ia ser tão secante.
The Meaning of Life quase que não se concretizou. Tínhamos ido para os Barbados para fazer A Vida de Brian, durante duas semanas.
Deve ter sido estupendo...
Bem, por um lado foi mas naqueles tempos não tínhamos telemóveis, então toda a gente parava quando queria usar o telefone. O John [Cleese] dizia várias vezes, ‘tenho de me ir embora, tenho uma reunião com o meu contabilista’ (risos). Então decidimos ir à Jamaica para The Meaning the Life. Tinhamos um rascunho do guião e era um pouco como um dos filmes de Buñuel em que se estava sempre a acordar de um sonho, algo circular. Todos lemos no avião, a ir para casa e achámos que não resultava. E voltámos à estaca zero. Lembro-me de acordar com um aperto no estômago que tinha desde os exames da escola. E pensei: ‘merda, isto não vai acontecer, é desastroso’. Essa manhã percorri o guião todo, com marcações feitas por uma rapariga que trabalhava connosco e percebi que tínhamos 17 minutos de material que achávamos fantástico. Não precisávamos de muito mais. Nesse pequeno-almoço o Mike Palin disse que tinha uma sugestão e eu também tinha. O Mike disse: ‘vamos reduzir as nossas perdas, voltar a casa e transformá-lo numa série de televisão’. Eu disse: ‘porque é que nos estamos a preocupar? Pelas marcações temos 17 minutos de bom material só precisamos de mais 20 minutos. Ainda sinto que é uma história de vida...’ De repente todos pegaram na ideia e o Eric [Idle] disse que poderia ser O Sentido da Vida. Apenas as sete idades do Homem. Uff. Tudo resolvido ao pequeno-almoço.
O processo de escrita nos filmes foi diferente do programa de sketches, não?
Bem, nem por isso. Ainda fazíamos cena a cena. Até na Vida de Brian. Apenas tentámos escrever cenas divertidas.
Com as mesmas equipas? Você e o Michael Palin...
Sim, mas no Sentido da Vida acho que o John estava tão farto de trabalhar com o Graham [Chapman], por isso, houve trocas. Nada de chocante, na verdade.
Esteve envolvido em Spamalot?
Nem por isso. Foi mesmo o Eric Idle. Vi-o umas duas vezes. Acho que tem coisas muito cómicas, mas não acho que seja Python.
Ah não?! Isso é interessante.
É muito mais Eric do que Python. É muito amplo no tema, enquanto Python nunca era tão amplo. Por isso acho que tem um appeal mais global que os Python. A verdade é que os Monty Python nunca tiveram uma audiência enorme. Teve sempre um público muito fiel, mas era algo minoritária. Acho que o máximo que tivemos foi 6 milhões… e isso foi no tempo em que só havia três canais e havia, às vezes, 20 milhões a verem programas de comédia. Sempre foi mais de minorias e felizmente nos Estados Unidos, uma minoria é algo enorme (risos)! Foi aí que tivemos sorte. A maior parte das pessoas não gosta de Python (risos).
Bem, não é bem essa a minha percepção...
Mas se olharmos para a demografia de quem gosta dos Python é sempre uma minoria, mas de alguma forma Spamalot alargou mais o espectro.
Os seus sucessores, chamemos-lhe isso, como Not The Nine O'Clock News [obrigado Nande] tinham um sketch com Jesus Cristo. Era como uma inversão do vosso debate em A Vida de Brian. Ainda há uma série chamada Big Train...
Nunca vejo televisão
Um bom hábito
Mas acho que já vi um dos Big Train e achei muito cómico.
Eles seguiram claramente a vossa herança e trabalharam a partir daí. Mesmo nos EUA há uma animação chamada South Park. E os criadores dizem que os pais nunca os deixavam ir para a cama sem que vissem os Monty Python. Era obrigatório. Tem consciência dessa herança?
Nem por isso. Quando vejo estes programas parece-me ter pouco a ver com Python, não percebo propriamente o que as pessoas querem dizer com isso. Talvez seja porque ao ver Python percebem que tudo é possível na comédia. Já conheci o Trey Parker e o Matt Stone. Eles fizeram uma cena muito divertida com a mãe do Terry Gilliam. Amarraram no programa a mãe dele para o obrigaram a trabalhar com eles (risos). »«


--
Porque é que Terry Jones está em Portugal?
O ex-Python, que tem viajado, dos Estados Unidos à Europa nos últimos tempos, acedeu ao convite do Teatro São Luiz em estrear mundialmente a sua peça Evil Machines (uma espécie de ópera) em Lisboa. «Uma mistura de lava-loiças, carros, bicicletas motorizadas e cantorias no palco, que vai surpreender, fazer perder a cabeça e não deixar pedra sobre pedra», explicou Mr. Jones, que está há mais de uma semana a ensaiar diariamente com o elenco da peça, que estreia a 12 de Janeiro.
Antes disso, podemos ver os talentos do versátil escritor (Terry Jones) já este fim-de-semana, no São Luiz, na reposição do espectáculo musical Contos Fantásticos, onde irá narrar (com legendas em português) os textos escritos por si – de hoje a domingo é Mr Jones, dia 14 e 15 será o actor João Reis. O espectáculo de teatro e música, executada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, com direcção de Cesário Costa e o concertino Xuan Du como convidado especial, regressa agora à sala principal do São Luiz. Uma oportunidade única para ver, ao vivo, um dos Python.
Mas acho que já vi um dos Big Train e achei muito cómico.
Eles seguiram claramente a vossa herança e trabalharam a partir daí. Mesmo nos EUA há uma animação chamada South Park. E os criadores dizem que os pais nunca os deixavam ir para a cama sem que vissem os Monty Python. Era obrigatório. Tem consciência dessa herança?
Nem por isso. Quando vejo estes programas parece-me ter pouco a ver com Python, não percebo propriamente o que as pessoas querem dizer com isso. Talvez seja porque ao ver Python percebem que tudo é possível na comédia. Já conheci o Trey Parker e o Matt Stone. Eles fizeram uma cena muito divertida com a mãe do Terry Gilliam. Amarraram no programa a mãe dele para o obrigaram a trabalhar com eles (risos). »«
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Porque é que Terry Jones está em Portugal?
O ex-Python, que tem viajado, dos Estados Unidos à Europa nos últimos tempos, acedeu ao convite do Teatro São Luiz em estrear mundialmente a sua peça Evil Machines (uma espécie de ópera) em Lisboa. «Uma mistura de lava-loiças, carros, bicicletas motorizadas e cantorias no palco, que vai surpreender, fazer perder a cabeça e não deixar pedra sobre pedra», explicou Mr. Jones, que está há mais de uma semana a ensaiar diariamente com o elenco da peça, que estreia a 12 de Janeiro.
Antes disso, podemos ver os talentos do versátil escritor (Terry Jones) já este fim-de-semana, no São Luiz, na reposição do espectáculo musical Contos Fantásticos, onde irá narrar (com legendas em português) os textos escritos por si – de hoje a domingo é Mr Jones, dia 14 e 15 será o actor João Reis. O espectáculo de teatro e música, executada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, com direcção de Cesário Costa e o concertino Xuan Du como convidado especial, regressa agora à sala principal do São Luiz. Uma oportunidade única para ver, ao vivo, um dos Python.
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quinta-feira, dezembro 06, 2007
have you met mr jones
O vídeo do momento neste blog. Disponível aqui.
Organizei de forma completa (todo o processo) e pela primeira vez, aquilo que posso chamar uma espécie de evento. Ricardo Araújo Pereira entrevista Terry Jones, dos Monty Python. A entrevista reflecte a forma como ele foi um dos Python mais influentes - embora não seja dos mais conhecidos. Fica-se ainda a saber que não havia nenhum conceito pré-definido para os Python, eram apenas rapazes que queriam fazer comédia, se possível de maneira diferente do habitual. Mr Jones explica que o grande sucesso dos Python só surgiu recentemente. Uma autêntica lição da História recente do humor cheia de curiosidades sobre os Python.
No final, fiz algumas perguntas ao ‘Gato Fedorento’ e ao ‘Monty Python’ – as mesmas aos dois, numa espécie de frente-a-frente. Infelizmente não consegui fazer todos, até porque a sessão já se prolongava e Mr. Jones (que tinha estado sete horas em ensaio e também já estava cansado) recebeu um telefonema da filha e tinha de ir andando para o hotel. Terry Jones revelou não ter o “rei na barriga”, bem pelo contrário, como extremamente simpático, divertido e interessante. Fez ainda uma sessão de fotos repleta das míticas expressões faciais que usou nos Python (tirei uma foto com o RAP e Mr Jones, para consumo interno)! Uma experiência para não esquecer.
A entrevista decorreu terça-feira, ao final do dia, no São Luiz.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
aluado no mundo dos python

uma parede com a cara de John Cleese estampada. Foto tirada por Terry Jones, que está em Lisboa a ensaiar a narração de contos que escreveu - visto graças ao blog do Nuno Markl
Quando estamos a organizar coisas que envolvem pessoas que admiramos, existe o grande receio de desiludirmos os outros ou a nós próprios. Mas como quem arrisca, não chega a levantar-se da cadeira para nada, mais vale levantar-me da cadeira.
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sábado, setembro 08, 2007
a perda também pode ter comédia
"Always Look On The Bright Side Of Death"
"Graham Chapman, membro dos Monty Python´s, morreu em 1989.No seu funeral foi feito um discurso pelo John Cleese (membro dos Monty Python´s) que demonstra o que de melhor a comédia tem." --- Bruno Nogueira
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sábado, março 11, 2006
jones em portugal
Outra coisa curiosa no post que reproduzo de seguida é o título. Os graus de separação, têm a ver com os conhecimentos, mas daquilo que eu sei usam-se nos Estados Unidos. Eu só ouvi esta expressão desde vi o pseudo documentário O Meu Encontro com Drew.]
Estou a um grau de separação do Terry Jones!
Falei há bocado com o Nuno Artur Silva, que, ainda esmagado pela experiência, me contou que ontem jantou com o Terry Jones na Bica do Sapato. O Terry Jones foi simpatiquíssimo, o Nuno Artur explicou-lhe quem eram Cinha Jardim e toda a saga Pedro Santana Lopes (Cinha terá sido apresentada a Terry Jones por Jorge Salavisa, director artístico do S. Luiz; perante a notícia de que Terry Jones, dos Monty Python, estaria no restaurante, Cinha terá dito "QUEM?"), o grande Terry fartou-se de fazer perguntas sobre o funcionamento das Produções Fictícias e ainda explicou que hoje em dia já não se mete em comédia assumida - prefere fazer documentários (vistos como algo mais respeitável e mais facilmente aceites por uma televisão) e enlouquecer as coisas lá dentro.
(...)
A peça e as histórias devem ser fenomenais. O João Reis é um óptimo actor e o Terry Jones, para lá da sua experiência em comédia com os Python é um exímio criador de lendas, não apenas nos livros que assinou com o Brian Froud, mas em filmes como o mítico LABIRINTO, que ele escreveu para o Jim Henson e o George Lucas em 1986.
in Há Vida em Markl
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sexta-feira, outubro 14, 2005
a recordar
A programação da RTP Memória nos próximos dias tem algumas coisas saborosas, reparem:
Sábado, dia 15
15h30 - MONTY PHYTON
Há um humor pré - Monty Python e um humor pós - Monty Python. O grupo inglês constituído por Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin e Carol Cleveland, revolucionou o chamado humor "non sense". A RTP Memória vai apresentar uma série que mostra esse humor: "Monty Python´ Flying Circus", uma série de televisão que esteve "no ar" de 1969 a 1974. A troupe apresenta uma série que é frequentemente surreal, maluca, descomprometida, por vezes de mau gosto, mas sempre inevitavelmente hilariante.
19h00 – BONANZA (Sábado e Domingo)
Quem não se lembra da mais mítica de todas as séries de televisão do Oeste americano: Bonanza? Ben, Adam, Hoss, Little Joe e Jamie, os Cartwright são os heróis desta série que fez as delícias de gerações de espectadores que não perdiam um episódio. Ponderosa era o seu rancho. Em Virgínia City, no Nevada. Todos os filhos de Ben, nasceram de diferentes mulheres que tinham passado pela sua vida. Já todas tinham falecido e ele cuidava deles, livrava-os das confusões em que se metiam, ajudava a comunidade... Adam, o galã, Hoss, o gordo de bom coração, Little Joe, o mais novo, mas o mais ternurento de todos.
21h30 - SIM, SENHOR MINISTRO
O dia-a-dia num ministério muito especial...
James Hacker é nomeado Ministro da Administração Interna e ocupa gloriosamente o novo cargo.Mas nem tudo são rosas - James tem dois colaboradores de personalidades bem diferentes - um Chefe de Gabinete e um Secretário. James bem tenta iniciar-se na brilhante carreira de Ministro, tomando as habituais medidas de reduzir despesas, mas depara com a oposição feroz e sarcástica do seu chefe de gabinete, Sir Humphrey Appleby que acaba sempre por lhe responder reverencialmente "Yes, Minister".Uma conhecida série da BBC, com as excelentes interpretações de Paul Eddington, o ministro, Nigel Hawthorne, o Chefe de Gabinete e Derek Fowlds como o secretário, Bernard Wooley.
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sexta-feira, janeiro 26, 1990
terry jones, a última parte
Terry Jones no adeus a Portugal, dois meses depois
A primeira vez que conheci Terry Jones coloquei um conhecido humorista/guionista português (Ricardo Araújo Pereira), grande fã de Jones e dos Python, a entrevistá-lo e levei comigo cameraman e fotógrafo – era uma ideia minha mas para o jornal. Também lhe fiz algumas perguntas, antes da entrevista do RAP e depois.
A segunda e provavelmente última vez que estive com Terry Jones levei-me a mim - passo o pleonasmo -, sem máquinas fotográficas nem nada do género, nenhuma pergunta pensada e apenas o desejo de não perguntar quase nada dos Python (já tinha sido explorado no primeiro rendez-vouz). Depois de ler e ver tantas entrevistas e textos (incluindo do Nuno Markl) sobre o passado, queria saber essencialmente duas coisas: como correu a experiência de dois meses em Portugal e projectos para o futuro. Os 10 minutos previstos não davam para muito mais, acabaram por ser mais minutos mas ficaram muitas dúvidas por esclarecer... esqueci-me com algum do nervosismo - devia ter apontado.
Quando entrei na sala principal do São Luiz, onde falei com ele (nas cadeiras vazias da plateia), pude reparar na boa relação que ele tinha com a Cecília, responsável da comunicação do teatro. Terry queria que enviassem para casa dele de Londres alguns tipos de cartazes do Evil Machines, a peça que veio cá estrear. Deu a morada, que já não se lembrava muito bem, num papel improvisado.
Encontrei um Terry Jones muito, muito cansado porque só tinha dormido duas horas naquela noite. “Tive de ir levar o meu cão ao aeroporto, que voltou para a minha casa de Londres e perdemos muito tempo por lá, deitei-me tarde e tive de levantar-me às 6h da manhã para ir buscar um amigo meu que chegou hoje de Londres para vir conhecer Lisboa”, disse um Jones com olheiras e fala lenta, que esfregava muito os olhos, de sono.
Fiz mais uma espécie de conversa com ele, com assuntos de que me ia lembrando. Só comecei a gravar já depois de uns minutos de conversa, pelo o que aparece em baixo não é o início da conversa.
Fui sempre perguntando-lhe se queria parar, porque ele estava mesmo cansado, mas como aquilo era mais uma conversa ele não se importou de continuar. Só parámos mesmo porque chegaram músicos que iam fazer ensaio e ele tinha de ir ter com eles. Terry também me fez algumas perguntas sobre Portugal, a nossa história, Lisboa e os costumes, mas antes de ter começado a gravar. Não incluo isso de seguida.
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16-01-2008
Costuma utilizar um pequeno caderno para ir escrevendo ideias ao longo do dia como este [mostro o meu pequeno caderno preto]?Sim, tenho um que comprei em Lisboa, algures, com que tenho preenchido com as minhas notas. E o que descobri com o teatro, porque nunca tinha feito anteriormente, foi quando os actores ensaiavam e eu escrevia notas, acabei por perceber que não as conseguia ler… as minhas próprias notas (risos) O que tive de fazer foi ir embora e na manhã seguinte, levantava-me mais cedo para escrever as notas com calma para poder dá-las ao elenco durante o dia e sem deixar de conseguir perceber o que tinha escrito.
Não usa o computador?
Uso, mas gosto de fazer notas em papel, é mais fácil.
Mas usa muito o computador, é onde trabalha por excelência?
Sim, é onde trabalho e escrevo.
Pergunto-lhe isto porque, por exemplo, Paul Auster nunca escreve em computador, adora a máquina de escrever e não muda de modo algum…
A sério? Curioso. Amante de máquinas de escrever, consigo perceber porquê, embora eu hoje me custe não escrever no computador, é uma ferramenta importante inclusive a Internet. Muito útil.
Sobre a sua estadia em Portugal. Foram dois meses. Dois meses agitados? Difíceis em termos de trabalho já que teve ensaios sem parar?
Não diria difíceis, foram bons. Bem, com o Evil Machines senti-me ligeiramente como quando fizemos o Life of Brian. Era uma espécie de montanha russa. O projecto tinha o seu próprio momentum. Parecia que estava constantemente a melhorar, a ser mais apurado. Pode parecer conversa de showbiz, mas o elenco tem sido tão fantástico. E eles “atiraram-se” verdadeiramente para esta missão. Na verdade acabámos por ter um período agradável, embora também tenha sido difícil.
Passou muitos dias com o elenco desde que chegou. Foi até à antestreia?Bem, tivemos alguns dias de folga no Natal e no Ano Novo, mas à parte desses oito dias, trabalhámos de forma sólida com o elenco, a ensaiar sem parar. Porque é um projecto novo muito difícil, porque a música não é simples e o elenco tem de aprender bem a música. Já para não falar que eu também me estava a estrear neste meio.
Os timings têm de ser certos…
Exacto, os timings têm de ser certos. Há essa parte, mas também a da interpretação e grande parte do elenco nunca tinha feito trabalho de actor, eles são cantores. Mas eles foram brilhantes, estiveram à altura e acho que se superaram.
Já viu a peça toda completa e com público…
Bem, a primeira vez que a vi verdadeiramente foi ontem à noite. A sessão de sábado [em que tinha estado presente Michael Palin], que era suposto ser a noite de estreia, e a performance de domingo tinha o lado técnico a estragar “a pintura”. Eles estavam a utilizar o sistema errado para projectar o vídeo na tela. E também remexi nas luzes da segunda parte do espectáculo na terça-feira, durante a tarde. Não estava feliz com ela. Agora resulta muito melhor, está muito mais suave.
Por isso, a noite passada foi a primeira vez em que pude dizer que aquele era o espectáculo que queríamos fazer.
Foi o seu primeiro projecto a encenar e nem tudo foi perfeito. Foi bom poder ter ficado mais alguns dias depois da estreia…Acabou mesmo por ser essencial… (risos) não devia dizer isto… mas não me apercebi que terça foi o último ensaio, pensava que tinha sido na sexta, mas afinal foi mesmo terça. Descobri que não estávamos todos a trabalhar para o mesmo deadline (risos).
Mas tudo terminou bem, não foi?
Sim. Sempre estive confortável com o elenco. Era mais uma questão de não termos todos os elementos certos que precisávamos no espectáculo de sábado e domingo.
Sobre o Teatro São Luiz. Já viu, acredito, teatros maiores e mais bonitos, mas o que acha deste?
Eu adoro este teatro, tem requinte e é um teatro lindo. O espaço do auditório e a relação com o palco é óptima. Já estive noutro em Lisboa, o Trindade, e esse também é muito bonito e tem uma sensação ainda mais intimista do que este, outro óptimo teatro.
Passou o Natal e o Ano Novo em Portugal, pelo que sei. Costuma passar o Natal noutros países, em trabalho ou lazer?Não, de todo. Na verdade foi uma das poucas vezes que o fiz.
Porquê?Porque não quis toda a confusão de voltar para trás para Londres.
Também estava mais frio por lá…
Sim, também é verdade. Mas tínhamos poucos dias, eram quatro e dois eram mais para viajar, preferi ficar cá.
E foi agradável?
Sim, foi maravilhoso porque ficámos no apartamento e evitámos qualquer socialização.
A família veio cá?
Não, só eu e a minha parceira.
Foi tão descontraído! (risos) Em Inglaterra, o jantar de Natal é no dia de Natal, no 25, por isso essa é a grande ocasião, mas aqui fomos apenas ao café em frente que estava aberto e tivemos o nosso Natal por lá.
Tinha árvore de Natal ou não quis…
Não tínhamos, apenas evitámos o Natal, basicamente. Ficar aqui foi uma técnica de o evitar, uma boa técnica, diga-se. Soube bem.
Em dois meses por cá não teve muito tempo sem ser a trabalhar, mas ainda teve oportunidade de passear, não? Só conheceu Lisboa?Sim, embora tivéssemos ido ao Estoril e Cascais. Andámos pela praia de Cascais até ao Estoril e foi lindo. Vocês têm grandes vantagens, como o tempo, o vosso tempo é fantástico. Mas não saí muito mais do que isso. Estive sempre por Lisboa e posso dizer que é uma bela cidade para se viver. Adoro o facto da pessoas viverem no centro. Em Londres é tudo tão caro que ninguém tem dinheiro para viver no centro, por isso é só escritórios e lojas.
E à noite fica tudo vazio…
Sem dúvida, especialmente a cidade central, a zona financeira.
Mas o óptimo é quando se tem uma cidade onde as pessoas também vivem, para além de trabalharem tem-se pequenas coisas como mercearias e talhos ainda dentro da cidade.
Já esteve noutros países por dois meses, como aqui? Talvez durante as rodagens dos filmes que realizou…
Sim, mas só nessa altura… quando fizemos Life of Brian. Também estivemos em Nova Iorque quando fizemos um espectáculo de palco dos Python o que durou talvez um mês. Este [em Portugal] talvez seja mesmo o período mais longo que fiquei num país que não o meu.
A fama dos Monty Python deu-lhe oportunidade de ser conhecido e apreciado em muitos países. Tem viajado muito? Tenho lido entrevistas suas em passagens pela Hungria bem como localidades menos centrais dos Estados Unidos, por exemplo.
Tenho ido, é certo, mas na verdade não sou um grande viajante. Não gosto particulamente de “saltitar”. A maior parte das viagens que faço agora é mais porque vou falar em universidades mais sobre História Medieval. Mas não gosto de voar… o que não dá muito jeito.
É diferente de Michael Palin, nesse sentido…
(risos) Sem dúvida! O Mike veio cá sábado para a estreia, mas acho que foi mais uma desculpa para se meter num avião… (risos)
Dos Python é com o Mike que tem os laços mais fortes, porque começaram juntos… Sim…
Ele é uma pessoa ocupada, mas veio cá de propósito para a estreia da peça… é um grande amigo?Sim e vir cá é um sinal de grande amizade. Mais um. Mas ele pareceu gostar, portanto valeu a pena a vinda. Preferia que ele tivesse visto a performance de terça-feira, em vez de sábado, porque esse foi “o” espectáculo (risos).
O Michael e Mr. Terry Jones têm trabalhado mais na Europa. Os outros Python estão mais “sediados” nos Estados Unidos, não é?
Sim, embora o Terry Gilliam também viva em Londres, apesar de ser americano. O Terry, eu e o Mike ficámos por Londres e o Eric e o John vivem na Coste Oeste norte-americana o que também demonstra os nossos percurso depois dos Python. São opções que se tomam. Percebo o fascínio pelos Estados Unidos, mas eu estou contente por ter ficado.
Vê-os menos a eles…Sim, vemos-os pouco. Embora eu, o Terry [Gilliam] e o Mike [Palin] jantámos com o John [Cleese] há poucos meses, quando ele veio à cidade. Quando ele vem cá liga-nos e combinamos qualquer coisa. É agradável, falamos do passado com quem o viveu connosco e do futuro, muito do presente e futuro.
Sobre os seus documentários na BBC. Fez os Medieval Times e os Barbarians, ambos históricos. Os Barbarians é um tema muito próximo dos britânicos, porque acabam por ser os antepassados… Era importante para si mostrar às pessoas que os Bárbaros não eram, como a história os fez parecer, verdadeiramente bárbaros?
Bem, os Bárbaros não eram particularmente antepassados dos britânicos apenas, também estiveram em Portugal.
Haviam muitos tipos de Bárbaros…
Exacto, porque basicamente era apenas uma palavra de abuso usada pelos romanos contra todos os que não eram romanos.
Para os denegrir.Exacto.
Mas para si era importante que estes documentários ajudassem a mudar os enganos da história… e sempre com uma pitada do seu humor...
Sim. É uma oportunidade de evidenciar coisas da história que achamos que estavam erradas. O humor nestes casos ajuda a desanuviar, a prender mais a pessoas.
Foi bom mostrar isso, porque a história que vem nos livros nem sempre é a história que se passou. Os povos mais evoluídos, como os romanos, sempre que conquistavam outro povo tratavam de destruir qualquer registo de cultura ou civilização desse povo, para poderem escrever a história conforme lhe fosse mais conveniente. Inventavam mesmo feitos seus e debilidades daqueles que eles chamavam bárbaros, a verdade é que o nome pegou até à modernidade…
E eu gosto bastante quando podemos mostrar um lado diferente de um assunto. Mas, na verdade, eu faço os documentários porque aprendo tanto com eles. Eu não sabia nada sobre o mundo clássico, antes de fazemos os Barbarians, por isso foi uma óptima curva de aprendizagem sobre esses tempos.
Mas não foi ideia sua fazer daquela forma os documentários?Bem, foi minha e do Alan Ereira. Estivemos a pensar em fazer os Barbarians durante algum tempo. As ideias foram surgindo dos dois.
Tem-se mantido bastante ocupado. Agora irá partir para Londres. O que se segue? Há novos projectos? Vai guardar alguma desta experiência em Portugal para fazer o Evil Machines noutros países, noutros teatros do mundo?
Bem, se algum nos convidar para fazer Evil Machines noutro país terei gosto em fazê-lo, embora pensasse duas vezes em ter novamente dois meses de trabalho. Repetir o mesmo processo acho que não repito. Mas adoraria fazer a peça em Londres ou Nova Iorque.
De qualquer forma tenho um filme animado que escrevi com Anna Söderström e estamos a finalizar os detalhes. Também vou realizá-lo e como nunca dirigi nada animado também será uma nova aventura. Também quero transformar os Evil Machines num guião para cinema, mas filme animado é baseado na história de Adão e Eva.
Tem feito filmes de tempos em tempos. Não sente obrigatoriedade de voltar?
Adoro fazer filmes. É uma experiência que aprecio muito. Mas o problema é que não me vejo propriamente como realizador, apenas dirigi filmes que escrevi ou estive envolvido na escrita, embora haja uma excepção com um filme que um amigo meu escreveu chamado Personal Services. Mas o problema é que não escrevi nada que resultasse. Preciso apenas de escrever um guião que resulte e que eu queira mesmo ver feito.
O mundo dos Python abriu-lhe portas para ter bons elencos e apoios. Isso tem-lhe permitido trabalhar em temas que lhe são caros, especialmente História…
Faço apenas coisas que me interessam e História é uma delas. Tenho tido uma sorte tremenda de poder fazer isso. Os Python tornaram tudo isto possível tanto por me dar visibilidade para que as pessoas me peçam para fazer programas de história e coisas do género, mas também me deu o conforto financeiro para que eu possa perseguir coisas que não dão necessariamente dinheiro. O mesmo acontece, por exemplo, com o Terry Gilliam.
O que é um privilégio nesta indústria…
É mesmo, é maravilhoso.
Embora seja um assunto que não o envolve directamente… A greve dos argumentistas, no Estados Unidos… sente que eles têm razão e estão a ser corajosos na sua “luta?Pelo que percebi da greve, tem a ver com os ganhos na Internet e em DVD. O que aconteceu foi que há cerca de 20 anos, a Writers Guild comprometeu-se sobre os direitos nesses domínios e assinou um acordo que eliminava quaisquer ganhos. Eles perceberam que cometeram um grande erro e desta vez estão determinados em não cometer o mesmo erro.
Apesar dos estúdios, como desculpa dizerem que há pouco dinheiro na Internet neste momento, todos sabem que é claro que isso irá acontecer. E significaria que os escritores ficariam sem quaisquer direitos aí. Estou com eles, absolutamente com eles.
É uma luta simpática, na perspectiva de serem escritores unidos a combaterem uma grande e poderosa indústria de interesses e com a sociedade a solidarizar-se como eles, tal como os actores?
Parece-me um bom exemplo de que a solidariedade pode fazer a diferença e que precisamos que nos apoiar uns aos outros. No caso deles parece estar a resultar a uma escala incrível. O que, de certa forma, é aquilo que trata exactamente o Evil Machines. Sobre pessoas que precisam umas das outras. Todos precisamos uns dos outros.
Uma última pergunta, porque Mr Terry está tão cansado…
É suposto fazer uma entrevista de duas horas no final desta tarde… nem quero pensar nisso e acho que não consigo, brrrk.
É para um documentário sobre si, não é?
Sim e sobre o making of do Evil Machines. Mas acho que não tenho energia em mim para isso.Hoje é um dia cansativo…Acho que vou sugerir ao realizador para fazermos amanhã para ver se ele não se importa. Mas continuemos então, desculpe…
Tem dado dezenas de entrevistas em pouco tempo aqui por Portugal a quase todo o tipo de meios. Tem sido muito aberto nisso. Sempre com um grande sentido de abertura e honestidade nas respostas muitas vezes a perguntas exigentes…É publicidade, basicamente. Temos de encher o teatro. E sou assim, aberto e não consigo evitar não dizer o que penso.
Mas não se sente às vezes incomodado, com tantas entrevistas?Não penso muito nisso. Acabo por sentir que devo isso à organização, porque o Jorge Salavisa e o São Luiz tomaram um grande risco para colocar este espectáculo no ar e sinto que tudo o que possa fazer para os ajudar a terem mais pessoas no espectáculo faço. Sinto-me bem por poder ajudar. Sou mais um.
Os Python surgem sempre nestas entrevistas. Pode ser um pouco chato ser sempre o mesmo?Não me importo muito. É simplesmente algo de que falamos. Umas vezes melhor, outras pior. Não me importo de explicar os assuntos várias vezes, até porque é uma forma de recordar, de manter as memórias vivas e frescas. É sinal também de que as pessoas querem saber, o que é bom.
Esteve na SIC Notícias, na Liga das Nações onde dois homens o entrevistaram ao mesmo tempo... correu bem?Sim, embora acho que ninguém ouviu propriamente o que eu disse (risos). Vou a essas entrevistas porque dá jeito promover a peça, mas não me importo de responder mesmo quando são coisas mais exigentes como essa. As pessoas têm curiosidade sobre os Python mas dá mais gozo explicar a umas do que outras.
Os Python foram tempos incríveis e inesquecíveis. É bom falar deles até porque são eles que me pagam as contas e foi há pouco tempo que esse mediatismo tornou-se mais global.
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[Entretanto chegaram os músicos e parei de gravar. Ainda estive a falar mais um pouco com Terry Jones que me disse, por exemplo, que se lembrava bem da entrevista com o RAP porque “I simpatized with the lad and the whole notion behind his group”. Achei curioso ter chamado ao RAP, um rapaz humilde cuja altura lhe faz lembrar o John Cleese. Não disse se voltaria a Portugal tão cedo.]
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