sexta-feira, fevereiro 28, 2014

e o óscar vai (devia de ir) para... txaran!

Façam as vossas apostas, ou não. Os Óscares estão aí. É já no domingo. Este ano há muita variedade em estilos, mediatismo e géneros nos filmes nomeados. Há bastante qualidade mas não há um filme que se destaque por completo e se diga... só pode ser este a ganhar.
São nove filmes na desejada lista do Melhor Filme. Existem favoritos já definidos para as várias categorias por critérios bem diferentes, os prémios que já venceram, os estilos favoráveis aos milhares de membros da Academia... a promoção ao filme, etc, etc.
Aparentemente e até pelo trabalho técnico (que nem todos reparam) brilhante, Gravidade deve ganhar o maior número de estatuetas (o que não é propriamente relevante).

Como habitual, estou dividido. Por isso coloco por baixo os meus preferidos pessoais à vitória final e aqueles que são considerados favoritos ao Óscar.


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Melhor filme
Devia ganhar (para mim): Her (por levantar tantas questões de forma tão subtil) 
É favorito a ganhar: 12 Anos Escravo (o que até é merecido, diga-se). Gravidade é o seguinte favorito, em conjunto com Golpada Americana. Todos filmes bem diferentes. 

NOMEADOS
Capitão Phillips
O Clube de Dallas
12 Anos Escravo
Filomena
Golpada Americana
Gravidade
Her – Uma História de Amor
O Lobo de Wall Street
Nebraska


Melhor realizador
Devia ganhar (para mim): Alfonso Cuáron, Steve McQueen (por ordem) - Cuáron tem um trabalho minucioso incrível na forma como nos coloca, nas sensações, no espaço celeste. Tudo isso sente-se quando Sandra Bullock coloca os pés no chão e nos sentimos zonzos, como ela.
É favorito a ganhar: Alfonso Cuáron ou Steve McQueen (por ordem)

NOMEADOS
David O. Russell, Golpada Americana
Alfonso Cuarón, Gravidade
Alexander Payne, Nebraska
Steve McQueen, 12 Anos Escravo
Martin Scorsese, O Lobo de Wall Street


Melhor actor
Devia ganhar (para mim): Matthew McConaughey, Leonardo Di Caprio (por ordem) - é um desempenho notável de McConaughhey maximizado pela transformação física incrível e por ser um 'comeback' de alguém que foi menosprezado várias vezes; Di Caprio tem mais um desempenho brilhante, como outros, e também merece levar a estátua careca, tal como Bruce Dern ou mesmo Christian Bale (que interpretações!); Tom Hanks devia estar nomeado por Capitão Philips!
É favorito a ganhar: Matthew McConaughey, Leonardo Di Caprio (por ordem) 

NOMEADOS
Christian Bale, Golpada Americana
Bruce Dern, Nebraska
Leonardo di Caprio, O Lobo de Wall Street
Chiwetel Ejiofor, 12 Anos Escravo
Matthew McConaughey, O Clube de Dallas


Melhor actriz
Devia ganhar (para mim): Amy Adams ou Cate Blanchett (por ordem) - Adams é uma actriz que transforma papéis interessantes em personagens incrivelmente cativantes e profundas, como se viu em Golpada Americana, onde faz uma dupla fabulosa com Bale, num filme que vive das interpretações; Blanchett vale o filme de Woody Allen e mostra ser mulher para toda a obra, numa personagem difícil e complexa, tal como Meryl Streep (faz de mãe cruel em Um Quente Agosto).
É favorito a ganhar: Cate Blanchett  

NOMEADOS
Amy Adams, Golpada Americana
Cate Blanchett, Blue Jasmine
Sandra Bullock, Gravidade
Judi Dench, Filomena
Meryl Streep, Um Quente Agosto


Melhor actor secundário
Devia ganhar (para mim): Michael Fassbender ou Jonah Hill - Fassbender é um actor fabuloso que mostra isso mesmo em 12 Anos Escravo, interpretando um fazendeiro mau da fita cheio de incongruências e valores retorcidos; Hill tem um papel incrível e mostra, para mim, ainda mais versatilidade em O Lobo de Wall Street do que mostrou em Moneyball.
É favorito a ganhar: Jared Leto  (a transformação física e, diga-se, a forma perfeita como interpreta este travesti devem convencer a Academia)

NOMEADOS
Barkhad Abdi, Capitão Phillips
Bradley Cooper, Golpada Americana
Michael Fassbender, 12 Anos Escravo
Jonah Hill, O Lobo de Wall Street
Jared Leto, O Clube de Dallas


Melhor actriz secundária
Devia ganhar (para mim): Julia Roberts ou Lupita Nyong'o - Lupita uma foi escrava vilipendiada em 12 Anos Escravo, num papel duro e surpreendente para uma actriz pouco conhecida; Julia Roberts é mais um 'comeback' do ano, com um papel duro como filha da cruel Meryl Streep em Um Quente Agosto.
É favorito a ganhar: Lupita Nyong'o ou Jennifer Lawrence (por ordem) - Lawrence tem um papel peculiar e engraçado, mais não pode ganhar todos os anos por algo que não é propriamente brilhante)  

NOMEADOS
Sally Hawkins, Blue Jasmine
Jennifer Lawrence, Golpada Americana
Lupita Nyong'o, 12 Anos Escravo
Julia Roberts, Um Quente Agosto
June Squibb,Nebraska


Melhor filme estrangeiro
Devia ganhar (para mim): A Caça - duro mas brilhante.
É favorito a ganhar: A Grande Beleza  (Itália)

NOMEADOS
Ciclo Interrompido (Bélgica)
A Grande Beleza (Itália)
A Caça (Dinamarca)
The Missing Picture (Camboja)
Omar (Palestina)


Melhor filme de animação
Devia ganhar (para mim): Gru - O Maldisposto 2 
É favorito a ganhar: Frozen  (a Disney, a solo, deve ganhar pela primeira vez em muitos anos o Óscar este ano)

NOMEADOS
Os Croods
Frozen - O Reino do Gelo
Gru - O Maldisposto 2
Ernest & Celestine
The Wind Rises


Melhor argumento original
Devia ganhar (para mim): Her - é brilhante como filme e o guião ajuda, e muito, a ser dos filmes dos últimos anos que mais nos coloca a pensar sobre a humanidade, o amor e a tecnologia de forma tão fracturante e sem correr o risco de nos dar respostas ao calhas.
É favorito a ganhar: Her ou Golpada Americana  (como o Golpada deve falhar todos os outros prémios principais, a Academia costuma compensar o filme. Pessoalmente diria que O Clube de Dallas tem algumas hipóteses)

NOMEADOS
Golpada Americana, de Eric Warren Singer e David O. Russell
Blue Jasmine, de Woody Allen
Her - Uma História de Amor, de Spike Jonze
Nebraska, de Bob Nelson
O Clube de Dallas, de Craig Borten e Melisa Wallack


Melhor argumento adaptado
Devia ganhar (para mim): Antes da Meia Noite - do meu ponto de vista podia estar na lista de Melhor Filme e, como tal, merece aqui uma distinção de um filme tão arrojado e diferente no guião que vale pela excelência da tripla Hawke, Delpy e Linklater.
É favorito a ganhar: 12 Anos Escravo ou Filomena  

NOMEADOS
Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke
Capitão Phillips, de Billy Ray
Filomena, de Steve Coogan e Jeff Pope
12 Anos Escravo, de John Ridley
O Lobo de Wall Street, de Terence Winter


Melhor curta-metragem de animação
Que ganhe o português, Daniel Sousa!

Feral, Daniel Sousa e Dan Golden
Get a Horse!, Lauren MacMullan e Dorothy McKim
Mr. Hublot, Laurent Witz e Alexandre Espigares
Possessions, de David Shuhei Morita
Room on the Broom, Max Lang e Jan Lachauer


Melhor documentário
Os favoritos são The Square e 20 Feet from Stardom

The Act of Killing, de Joshua Oppenheimer e Signe Byrge Sørensen
Cutie and the BoxerZachary Heinzerling and Lydia Dean Pilcher
Dirty Wars, Richard Rowley e Jeremy Scahill
The Square, Jehane Noujaim e Karim Amer
20 Feet from Stardom


Melhor canção original
Os favoritos são Ordinary Love (dos U2) e Let It Go 

Alone Yet Not Alone, de Bruce Broughton e Dennis Spiegel, em Alone Yet Not AloneHappy, de Pharrell Williams em Gru - O Maldisposto 2
Let It Go, Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez em Frozen - O Reino do Gelo
The Moon Song, de Karen O e Spike Jonze em Her - Uma História de Amor
Ordinary Love, de Paul Hewson, Dave Evans, Adam Clayton e
Larry Mullen em Mandela: Longo Caminho para a Liberdade



Melhor banda-sonora original
Devia ganhar (para mim): Her - os Arcade Fire ajudam tanto ao dar ambiente ao filme que deviam ganhar!
É favorito a ganhar: Gravidade ou Filomena  

NOMEADOS
The Book Thief, John Williams
Gravidade, Steven Price
Her - Uma História de Amor, William Butler e Owen Pallett
Filomena, Alexandre Desplat
Ao Encontro de Mr. Banks, Thomas Newman


Melhor fotografia
Devia ganhar (para mim): Gravidade 
É favorito a ganhar: Gravidade  

NOMEADOS
The Grandmaster
Gravidade
A Propósito de Llewyn Davis
Nebraska
Prisoners


Melhor montagem
Deve e irá ganhar Gravidade ou Capitão Phillips

Golpada Americana
Capitão Phillips
O Clube de Dallas
Gravidade
12 Anos Escravo


Melhores efeitos visuais
Gravidade, all the way!

Gravidade
O Hobbit - A Desolação de Smaug
Homem de Ferro 3
O Mascarilha
Além da Escuridão - Star Trek


Melhor cenografia
Deve ganhar Gravidade...

Golpada Americana
Gravidade
O Grande Gatsby
Her - Uma História de Amor
12 Anos Escravo


terça-feira, fevereiro 18, 2014

istambul à superfície.

Istambul - significa ir para a cidade. Nome oficial da cidade hoje em dia. Começou a ser usado por algumas etnias turcas no século XV mas só se tornou o nome oficial da cidade nos anos 1920.
Constantinopla - nome que vem do imperador romano Constantino (o 'pai' do catolicismo, já que foi ele que criou a Igreja Católica, instituiu o cristianismo - com um misto de tradições pagãs antigas - e compilou os livros que quis para formar a bíblia, como a conhecemos hoje). Foi o nome mais usado a nível mundial para a cidade até aos anos 1920. A cidade foi mais de 1000 anos essencialmente cristã. A chegada dos otomanos no século XV mudou esse domínio.
Bizâncio - nome original da cidade fundada por colonos gregos em honra ao seu rei, Bizas até ao século IV, quando os romanos passaram a dominar a zona. Curiosamente o chamado 'Papa' dos gregos ortodoxos está em Istambul. Os turcos não gostam muito desse facto.

Em 50 anos a cidade passou de um milhão de habitantes para 15 milhões! Isso vê-se na construção algo caótica que alargou a cidade - também se vê construção recente a um estilo bem europeu.


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Istambul. 
Que cidade. Entramos num mundo de cheiros, neblina, confusão, mesquitas gigantescas e complexas a nível arquitectónico, sempre com os incríveis minaretes. Muita gente. Capital do islão ocidental. 
A parte histórica e turística é muito limpa, com jardins. Saindo da parte mais antiga vemos ruas mais estreitas, mais lixo, mais gente, curiosamente.
Na parte turística tudo está em inglês, ou quase,
Há uma diversidade étnica incrível, mesmo dentro dos habitantes locais. Árabes, curdos, turcos judeus, arménios, peregrinos árabes...
Na parte asiática raramente se vê lenços nas cabeças das mulheres. É peculiar olhar para a zona asiática como a parte que parece mais europeia. Há menos coisas em inglês. O mesmo estilo de mesquitas, mas há mais espaços verdes e raramente se vê turistas. Parece uma parte da cidade mais moderna do que a parte histórica e europeia e mais bem organizada a nível urbanístico. Até nisso dá mais ares de ser parte da Europa.
A vista a partir de Uskudar (a zona asiática em que estive perto do bairro arménio onde nasceu e cresceu Calouste Gulbenkian e onde eu gravei uma peça do TV Turbo a referir esse mesmo facto em Novembro de 2010) é incrível. Vemos bem perto a ilha/torre Maiden, a parte histórica na outra margem mais para a esquerda, o início do rio Bósforo e os bairros tradicionais mesmo em frente, do outro lado do rio. É impressionante, especialmente quando não se vislumbram nuvens no céu. Ainda assim há sempre uma certa neblina presente - talvez seja pela confusão ou pela poluição. Mas está sempre presente e parece ser fácil a cidade ficar cinzenta quando o tempo está nublado (a neblina ainda esconde mais a luz).
Ao fundo, ainda no mar de Mármara, junto à entrada do rio Bósforo que liga o Mármara com o gigante Mar Negro (partilhado com a Ucrânia, Rússia - incluindo Sochi - e companhia) avistam-se as dezenas de cargueiros e petroleiros que procuram ligar Mediterrâneo, Europa, Ásia. As águas da zona não dão ares de limpeza. Sujidade, poluição e uma população de gaivotas cheia de truques incríveis.

Mais para norte na cidade, passando o corno de ouro e seguindo caminho para Besiktas e a praça Taksim vemos ruas pintadas de grafitti, uns mais inspirados do que outros. Muitas lojas com preços baixos, ao contrário do ridiculamente caro (local ideal para enganar turistas), Grand Bazaar. Subindo passa-se pela bonita e imponente torre com vista para a cidade, Galata.
Subindo mais um pouco vemos uma rua enorme com comércio que acaba na famosa praça Taksim. Uma praça digna da cidade por ser gigante na dimensão, mas sem os habituais edifícios gigantescos ou históricos que costumamos ver em praças europeias. Tem um longo muro de um lado, um edifício estatal com uma gigantesca bandeira turca do outro, uns prédios banais e no meio uma mini rotunda (para a dimensão da praça) com estátuas otomanas (parece), entre militares a envergar bandeiras e civis.
Actualmente não se vê carros na praça, só uns táxis num dos lados. Junto à zona de muralhas um autocarro anti motim, protegido até ao tutano, pronto para intervir. Polícia também não falta. Pelo caminho vi duas mini manifestações e um contigente policial armado até aos dentes bem superior ao número de manifestantes. Com bandeiras amarelas, e uma faixa com mensagens de ordem, reparei ainda num cartaz com a cara de um governante turco pintado de diabo e pelo meio da pequena manif, estranhamente, uma bandeira do Irão.

Ataturk está em todas as notas, na maioria dos edifícios e a sua foto está por todo o lado e não só em locais estatais ou públicos.
É herói turco mas há minorias que não gostam do seu liberalismo, da sua tentativa de criar uma identidade turca que resume dentro do possível a variedade turca e lança laços de aproximação ao ocidente.
Incrível ver as centenas de pescadores, a todas as horas do dia e noite, na ponte que liga a cidade velha e os bairros tradicionais, a ponte Galata (por onde passa o Tram - uns eléctricos modernos que atravessam a parte história e turística), com uma vista incrível para algumas das maiores mesquitas da cidade, mas também com vista para o lado asiático e para ponte (à noite com luzes coloridas) do Bósforo ao fundo, que liga Europa e Ásia.
Esta ponte, a Galata, tem duas passagens, uma por cima, onde estão os pescadores e passam os carros e outra por baixo com uma variedade de restaurantes incrível repletos de luzes coloridas que se vêem à distância à noite.

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Variedade.

Os turcos são variados nas etnias, nos hábitos, na cultura. 
Fiquei surpreendido por ver, mesmo nas zonas turísticas, tão pouca simpatia em quem servia.
Fui bem atendido, por turcos muito simpáticos, mas achei a maioria a atender sisuda, com pouca vontade de ali estar e com muita vontade em mostrar o desagrado. Gostam também de falar alto, ralhar uns com os outros e despachar o serviço o mais depressa possível. Reparei também na condução no centro histórico, com direito a inversões de marcha onde dá jeito e marcha atrás em ruas de sentido único (mesmo dos shuttles dos hotéis) só para evitar dar uma volta ao quarteirão. Turquices.
É ainda fácil sermos abalroados na agitação desta cidade gigantesca. Se levarmos um encontrão dificilmente vamos ter pedido de desculpas.

O cheiro. A cidade emana muitos cheiros. No Bazar das Especiarias então é incrível ver as cores nas montras e sentir tantos cheiros variados - parece a Índia. Nas ruas pode cheirar apenas mal, a nada em particular, a especiarias mas na maior parte das vezes cheira a milho ou castanhas assadas (especialidade que se vende em bancas portáteis rua sim, rua sim). Mas há mais cheiros...

Achei que, grosso modo, os turcos (destaco os homens, não senti isso nas mulheres) cheiram mal - os que não cheiram, coitados, têm de levar com os muitos que cheiram. Desodorizante não deve ser requisito nacional. Nos transportes públicos é fácil sentir o cheiro a cavalo da sovaqueira. Chega a parecer já estar incorporado no ar, mesmo quando há poucas pessoas no Tram ou metro.
Outro hábito que vi - só uma vez, diga-se - e me chocou foi algo um pouco medieval ou mesmo da pré história: comer tudo com as mãos. Pessoalmente adoro comer pizza com as patas mas não aprecio apegar-me com essas mesmas patas a uma asinha de frango, ou a qualquer outra parte do frango, e ir fazer outras tarefas sem limpar a gordura. Vi muitos rapazes e homens crescidos, mesmo com smartphones topo de gama e bem vestidos, com os dedos escuros de sujidade.

No aeroporto de Ataturk, claro, um senhor engravatado, bem vestido, nos seus 60 e com um cajado de madeira trabalhada, senta-se ao meu lado. Traz um tabuleiro com arroz e feijão. Pousa o cajado em cima da mesa, claro, o tabuleiro e usa os dedos gordos, largos e com aparente sujidade entranhada para fazer juntar arroz e feijão em 'meínhos' e, tudo juntinho entre os dedos, mete a mistela na bocarra.
Com seis ou sete 'meínhos' despacha um prato de arroz e feijão em poucos minutos. Terminada a tarefa alimentar esfrega as mãos e os respectivos dedos cheios de gordura uns nos outros, como quem usa o método para limpeza (a casa de banho estava a 10 metros). Faz uns barulhos com a boca, de como quem limpa os dentes desta forma e, alcança do bolso do blazer um pequeno lenço de papel. Fico eu a pensar, " ok, ao menos limpa aos mãos ao lenço".
Fui enganado, já que com cuidado para não limpar as mãos ao pano - nós não queremos esse ultraje - assoa-se e tira umas quantas cagaitas (pelo menos é o termo utilizado no Algarve e toda a gente sabe que por lá são todos mouros, segundo o Pinto da Costa) do nariz. Volta a arrumar no bolso o pedaço de papel, já repleto de cagaitas e outro tipo de muco nasal, e pega no... telemóvel. Olhando para as mãos dá para ver as unhas grandes, reluzentes da gordura. As pontas do dedos são escuras, encardidas, ásperas, menos reluzentes do que as unhas, já muito deve ter passado por elas. Felizmente o telemóvel não é táctil, ainda. É um Nokia e as teclas, vá-se lá saber porque já não têm visíveis números ou letras, tais devem ser as camadas de langonha.
E os meus hábitos alimentares nunca mais foram os mesmos desde este dia, 16 de fevereiro de 2014. Na área de comida do aeroporto de Ataturk, junto ao restaurante Turkish for All.
O fim, pegajoso. 


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A ser escrito: a minha entrevista a um grupo de estudantes locais (eram uns sete) que precisaram de um tradutor e ficaram doidos quando falei nos portugueses dos clubes turcos; a mesquita azul e os hábitos religiosos; o passeio pela Ásia que mais parecia a Europa com direito e comício político local; entre outros.

as turcas.



As turcas. Muita beleza feminina em Istambul. Na parte europeia vê-se muitas mulheres com lenços na cabeça e, em poucos casos, com burkas pretas. Algumas têm lenços na cabeça mas malas Louis Vuitton e sapatos Louboutin, de salto alto. Há mulheres turcas muito feias, mas provavelmente a maior parte é bonita e algumas de uma beleza embasbacante. A maioria pinta os olhos, com um contorno preto junto às pestanas e o efeito nelas é incrível. Resulta porque costumam ter olhos grandes e de um negro intenso.
Aquelas que não usam lenço mostram normalmente cabelos muito bonitos e tratados. Uns ondulados, outros negros, fortes e lisos. Percebe-se porque os homens querem esconder as mulheres, elas são bem bonitas e têm cabelos fortes e belos.

Eles são rudes na cara, a maior parte pouco bonitos com traços fortes: uns têm grandes narizes em arco, a fazer lembrar o meu amigo Filipe, outros diferentes mas igualmente pouco atractivos. Há também os que parecem de origem grega, com cabelos fortes encaracolados, os com origem judaica com cabelos alourados ou ruivos, os curdos, os eslavos, os com ar de russo. Variedade.

Na parte asiática elas quase que não põem lenços na cabeça. Curioso.
E junto às margens do Bósforo ou do Mármara vêem-se muitos casais a passear juntos e sozinhos um com o outro, a maioria delas tem o lenço na cabeça, mesmo sendo jovens. Namoram bastante, parece. Dá ideia que são casados há pouco tempo e só agora estão a namorar. Não houve tempo antes. Estão-se a conhecer embora já sejam uma família. Há sorrisos cúmplices e fotografias em conjunto e separado, com vista para o Bósforo. As máquinas podem ser topo de gama, tipo Canon, tal como os telemóveis ou tablets. Samsung e Apple são populares aqui como na maior parte da Europa ou EUA.  

Um dos momentos mais felizes a que assisti não teve a ver com casais. Junto ao mar de Mármara, com vista para uns quantos petroleiros e cargueiros a circular pelo mar, reparei numa jovem adolescente, a envergar o típico lenço a tapar o cabelo e a conduzir a sua bicicleta. Ia com uma amiga que ia um pouco mais à frente. Mas o que me deixou boquiaberto foi vê-la e fechar os olhos e abrir os braços (ao estilo asas) à medida que pedalava pelo passeio fora.
Que momento de liberdade maravilhoso! Peguei na máquina e ainda tentei imortalizar o 'evento' mas a máquina só apanhou parte - as mãos estilo asas ficam 'apenas' na minha memória e na vossa imaginação.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

adivinhação futebolística

Se fosse adivinho, que não sou, apostava no seguinte cenário para esta época futebolística:

- Liga portuguesa 
1. Benfica
2. Sporting
3. FC Porto
Taça de Portugal: Benfica 

- Champions
Bayern/Arsenal/Chelsea

- Inglaterra
1. Man. City/Chelsea/Arsenal
2. Man. City/Chelsea/Arsenal
3. Man. City/Chelsea/Arsenal

- Espanha
1. Atletico Madrid
2. Real Madrid
3. Barcelona

- Itália 
1. Juventus
2. Roma
3. Fiorentina

terça-feira, janeiro 07, 2014

por Eusébio

Nunca dei boleia ao Eusébio, não tenho nenhum autógrafo (apenas porque a primeira vez que falei com ele foi como jornalista estagiário do Público), nem tão pouco fui almoçar ao Ti Matilde para o ver. Mas lembro-me perfeitamente quando o comecei a admirar.
Foi na década de 90, o meu pai falava-me maravilhas do King mas só lhe dei ouvidos quando vi as primeiras imagens de arquivo na televisão. A velocidade, a elegância, o remate explosivo e certeiro, a eloquência e generosidade a jogar - era diferente de todos os outros em campo, um ET, superior, cavalheiro e felino (em Inglaterra chamam-lhe, quem o viu jogar ao vivo, de protótipo do jogador do século XXI). Fora de campo reinava a simplicidade e genuinidade. Poucas pessoas são tão genuínas como Eusébio. Era fácil encontrá-lo por Lisboa, da mesma forma que sabia onde encontrar o meu bisavô Abílio. Sempre com um sorriso, disponível e genuíno. Era como ter um mito vivo e disponível ao virar da esquina, entre a Luz, os jogos da selecção e o Ti Matilde.
A primeira vez que o vi andava na faculdade há pouco tempo - um puto caldense acabado de chegar à capital - , ia no autocarro e vi-o junto a um stand de automóveis em Sete Rios com ar de quem ia comprar. Fiquei nervoso, a lenda estava ali, e admiti passar por lá depois de sair na paragem. Passei mesmo mas não tive coragem de interromper, fiquei só com o dia ganho e a satisfação de quem pensa, feliz: 'wow, em Lisboa ver o Eusébio é quase como ver o meu avô Abílio!'
Uns anos mais tarde fui ao novo estádio da Luz, antes da inauguração oficial, com a missão de reportar os testes de segurança em que 5 mil crianças eram as cobaias. O evento contou com o Shéu e o Eusébio e no meio da maralhada de alguns jornalistas deu para ouvir algumas palavras do Rei da bola. Fiquei orgulhoso mas surpreendido e a achar que Eusébio não possuía o dom da fala.
Nervoso e a dizer os clichés da bola, parecia-me alguém pouco à vontade com o discurso formatado. Também me surpreendeu ver os colegas experientes tirarem algumas palavras e irem-se embora.
Eu fiquei por lá, ao lado dele, ao ponto de me obrigar a fazer perguntas por mim próprio ("és um jornalista ou uma amêba"). A minha pequena desilusão mudou quando o pus a falar dos golos no antigo estádio, nas memórias e nos tempos áureos. A cara iluminava-se com um sorriso contagiante, o discurso era mais fluido e entusiasmante e Eusébio revelava-se bem para lá das limitações da conversa institucional.

Passados uns meses, era eu jornalista wannabe a fazer algumas coisas em freelance, a cobrir o Euro2004 para o Publico.pt e ao mesmo tempo a fazer um part-time na Vodafone no atendimento telefónico ao cliente quando falei com Eusébio ao telefone. Vejo no ecrã (do atendimento da Vodafone) a chamada de uma conta do Benfica com o seguinte comentário associado ao número: EUSÉBIO. Fiquei na dúvida. 'Será?' Atendi e era mesmo ele. SORTE! Não escondi a voz 'sorridente'. Ele ligou para o serviço da Vodafone a pedir umas dicas sobre o telemóvel da marca Ericssen com um cartão italiano e pertencente a um amigo dele italiano (na altura Trappattoni treinava o Glorioso).
Tive de partilhar o momento com a malta mal me despedi do King com um "até à próxima".
É incrível imaginar que aquilo que um jovem moçambicano-português fez nos anos 60, acima de tudo nos 60, teve um impacto tão grande em tantas pessoas de culturas tão diferentes ao ponto de passarem essa admiração às gerações que se seguiram. É um legado épico para alguém que não conquistou à força povos, não descobriu novos mundos, 'só' era genial com uma bola nos pés e servia de inspiração a um povo a precisar de inspiração e até aos jogadores e 'povos' adversários. Ainda hoje é tocante ler textos comoventes escritos já em 2014 por jornalistas e jogadores ingleses que o viram jogar e que não esquecem a aura que o Pantera Negra tinha. É uma aura eterna, enquanto existir memória e ela for transmitida.

Mas a força de Eusébio entrava nos relvados e nos nossos corações mesmo sem jogar, sem brincar com a bola e mandá-la com estrondo para o fundo das redes - golo de Eusébio tinha de fazer estrondo nas redes e 'deus sabe' como eu bem tentei repetir esse estrondo nas redes durante os treinos que fiz no Caldas Sport Clube.
Não esqueço de como me emocionei quando Eusébio e a sua toalha inspiraram o Ricardo 'vozinha fina' a defender e marcar penáltis como um Rei Eusébio no Euro2004, frente à Inglaterra. No final, quando os dois se abraçaram, havia lágrimas de Ricardo, Eusébio e minhas, claro.
Não me esqueço de sentir na cara dele a tristeza quando fomos encavados pela França ou quando o vi ao lado de um Figo de blazer e a camisola 7 de Portugal vestida na bancada (o Rei já com dificuldades em se levantar para festejar) a comemorar um golo da Selecção frente aos checos no Euro2008.
Ele estava sempre lá a servir de inspiração a quem estava no relvado e a quem estava fora... E a cara dele era sempre um retrato da alegria ou da frustração de um povo unido à hora do jogo.

Em Novembro voltei a vê-lo, no Museu Benfica, literalmente atado (nas pernas) a uma cadeira de rodas, cansado e consumido pela debilidade física. Fiquei triste por ele. Ele ia ouvindo, mas pouco, o frete institucional. Despertou junto às duas taças dos Campeões Europeus, quando se começou a falar de bola finalmente sorriu e ainda tirou dúvidas a quem quis ouvir sobre o que era jogar naqueles tempos. Adeus e obrigado, Eusébio. Serás lembrado com admiração e carinho e vais fazer falta na Luz, em Lisboa, na Ti Matilde e num dos próximos duelos decisivos da equipa que joga futebol por Portugal.


terça-feira, dezembro 31, 2013

os quatro da vida airada

cinema

automóvel

tecnologia

desporto

experiências/reportagens

segunda-feira, dezembro 30, 2013

12 anos escravo

Um filme que nos tira da realidade moderna e nos coloca no meio da transição entre uns Estados Unidos com (Sul) e sem (Norte) escravatura. Steve McQueen coloca-nos na pele de um negro livre do Norte que é apanhado e capturado numa viagem de trabalho a Washington e que se vê no meio de um Sul intolerante e onde a escravatura ainda faz parte do prato principal. 



O que é chocante no filme de McQueen é sentir a impotência e frustração de um homem desde sempre habituado ao que todos devem ter, a liberdade, castrado pela força esmagadora da escravatura. 
É sociolagicamente relevante mas ao mesmo tempo perturbante ver as diferenças entre este homem agora escravizado e todos aqueles que nasceram no meio da escravatura, já dormentes ou indolores, que parecem indiferentes ao espancamento, chicoteamento ou assassínio de amigos ou conhecidos ali mesmo ao seu lado. É o hábito que os destrói, é o hábito que os apaga. Parecem gente sem alma. Dorida e em estado vegetativo que simplesmente só cumpre, não raciocina. 

É um filme duro e que nos coloca no centro de uma das maiores injustiças que o ser humano praticou sobre outros da mesma espécie, considerados inferiores pela cor da pele. O hábito também forma as mulheres e homens do sul, habituados aquela propriedade com que podiam fazer o que bem entendessem chamada homem/mulher/criança negra. O papel da vida de Chiwetel Ejiofor, com desempenhos perturbantes e fabulosos de Michael Fassbender (pela 3ª vez a trabalhar com McQueen - é um totalista), Benedict Cumberbatch, Brad Pitt, Paul Giamatti e Paul Dano. 

Um filme que nos faz dar valor à nossa liberdade, de escolha, de pensamento, de trabalho, de ser quem somos. Um filme baseado em factos verídicos que emociona e nos tira da realidade moderna tecnológica e cibernética e nos coloca no final do século XIX, prontos para ficarmos revoltados e solidários com Solomon Northup, o talentoso homem livre que se vê escravo e obrigado (vezes sem conta e à força) a assumir uma identidade diferente e a ser escravizado durante 12 longos e duros anos da sua vida. 

Um forte candidato aos Óscares pela história, pela realização e interpretações notáveis (Fassbender, Ejiofor) e um forte candidato a filme para ficar na memória por muitos e bons anos. 

A ver! 

0/10 - 9 valores!

sábado, dezembro 28, 2013

rap & tj



Ricardo Araújo Pereira e Terry Jones (dos Monty Python), no São Luiz, a meu convite ;)


it's christmas


quinta-feira, dezembro 26, 2013

mitos

Deixar uma uma mulher passar primeiro por uma porta
Oficial: símbolo de cavalheirismo
Real: oportunidade de analisar-lhe bunda e restantes atributos sem ela reparar

Cabelo longo da mulher
Oficial: bíblia diz para mulher se diferenciar do homem
Real: o cabelo longo ajuda a evitar que a respiração na hora da conchinha incomode a mulher / eles têm mais tendência genética para serem carecas

...

quarta-feira, dezembro 25, 2013

ho ho ho

sexta-feira, dezembro 20, 2013

mourinho & críticas

via Maisfutebol -
"A presença de um jornalista francês na conferência de imprensa gerou ainda uma pergunta curiosa. Mourinho foi confrontado com declarações recentes de Pascal Dupraz, que disse que só aceitava críticas ou sugestões do português. Isto depois de ter ouvido alguns reparos de um colega de profissão. 

«Todos somos criticados. A questão é confiar na nossa identidade e estarmos confortáveis com as críticas, não sermos influenciados. Não quer dizer que não possamos ler as críticas, pois as análises podem ser corretas, mas se confiarmos nas nossas ideias devemos ficar com elas. Aprendi isso ao longo dos anos. Os cães ladram e a caravana passa»


«Não podemos perder energia e concentração com esses debates, que tiram a concentração do essencial. Mas há uma linha entre crítica e falta de respeito. Há críticas com respeito, e devemos aprender a viver com elas. Por vezes é de mais, e as pessoas não respeitam essa linha, como aconteceu em Madrid»

quarta-feira, dezembro 18, 2013

herr brecht für alles


Todas as artes contribuem 
para a maior 
de todas as artes, a arte de viver.


Bertold Brecht

terça-feira, setembro 24, 2013

nothing else mathers



Metallica - Through the Never
O corredor é estreito e iluminado. Luzes fortes e azuis mostram o caminho para o recinto. É um espaço escondido e enorme, mais parece toda uma outra dimensão secreta onde a magia acontece. Tal como num recinto de um concerto, há um auditório enorme, e um "palco"/ecrã meio dobrado que parece não ter fim.
Aos primeiros acordes/imagens, sabemos ao que vamos. Os óculos 3D estão colocados, a atenção está na janela gigante para o concerto. Os sons duros, metálicos e impregnados em rock dos Metallica começam. Entre o concerto, apanhamos vislumbres da história de um rapaz a trabalhar nos bastidores. Um rapaz de recados, que entra no estádio sozinho, pé ante pé, roda de skate a rolar. Em instantes está no recinto a ouvir a explosão musical que são os Metallica. O público vibra, o rapaz vibra, o público na sala cinema transformada em estádio vibra. A banda está ao rubro num palco enorme e cheio de surpresas com vista de 360 graus para o público que os circunda.

Este filme-concerto-historieta dos Metallica e companhia dão um novo significado à palavra cinema-espectáculo ou à expressão tantas vezes sub-utilizada: ES-PEC-TA-CU-LAR.
No fim de contas, sem grandes enredos ou significados, resta o espectáculo épico e memorável e a experiência sensorial incrível. A audição e os olhos saem da sala numa espécie de orgasmo audiovisual e a mente sai a mil, tal é a adrenalina.

Supera em muito a experiência de um concerto, pela forma como nos coloca no meio do palco, como nos faz vibrar com as sensações do público, da banda, dos instrumentos musicais, tão perto (que quase somos capazes de lhes tocar), tão longe por estarmos a ver algo que não está verdadeiramente ali. Claro que o ambiente de um concerto, que abana um recinto e nos coloca a cantar e vibrar ainda não "salta" do ecrã com o sistema 3D, mas nunca se esteve tão perto disso e do ponto de vista de "sentir" o palco, supera em muito a ida a um concerto, ao vivo e a cores. O que vale é a experiência e Nothing Else Mathers.
perturbado pela noite.
derrubado pelo fado.
tudo cai quando sou lixado.
uma onda sem aviso
uma névoa sem passado
caio e levanto enviesado
ela olha e tudo pára
eu respondo. sou um diabo.
lucifer deixa-me ser apaixonado.

terça-feira, junho 11, 2013

carne branca cativa gedeão

António Gedeão, versão com o cio por adolescente. 

Rosa branca ao peito 

Teu corpinho adolescente cheira a princípio do mundo.
Ainda está por soprar a brisa que há-de agitar a tua seara.
Ainda está por romper a seara que há-de rasgar o teu solo fecundo.
Ainda está por arrotear o solo que há-de sorver a água clara.
Ainda está por ascender a nuvem que há-de chover a tua chuva.
Ainda está por arder o sol que há-de evaporar a água da tua nuvem.

(...)

quinta-feira, junho 06, 2013

futebol e vida

"Lutar contra a hipocrisia como um princípio de vida vale a pena, porque te sentes bem contigo próprio. Lutar contra a hipocrisia a pensar que lhe vais ganhar, não vale a pena, porque perdes".


José Mourinho, Junho de 2013.

sábado, maio 18, 2013

“Some are born to sweet delight
Some are born to endless night.
” 


— William Blake, Auguries of Innocence

terça-feira, maio 14, 2013

the north

Game of Thrones
Um mundo imperfeito, numa série perfeita.

sábado, fevereiro 23, 2013

filmes começados pela letra a(rgo) a(mour)

"Amour"
é um longo, penoso, duro, incrível e brilhante poema a uma velhice partilhada e à inevitabilidade do fim da vida.
É inevitável pormo-nos a pensar no fim de vida de familiares próximos, aqueles que já sofreram tanto e finalmente acabaram por dar o último suspiro e aqueles que ainda estão próximos de nós, mas que caminham para essa velhice, que quando deixa de ser dourada a única coisa que tem de bonito é as memórias e o amor incondicional que se pode manter bem vivo, mas que se manifesta de formas diferentes.



"Argo"
é uma história cativante, sobre a linha ténue entre salvar vidas e deitar tudo a perder. Sobre um operacional da CIA, mas acima de tudo um homem que procura salvar seis compatriotas de uma situação explosiva num contexto de guerrilha duro e repleto de sangue.
Ben Affleck tem vários méritos, o primeiro é o de ter tornado a história simples, mais do que sobre uma época histórica importante, espionagem, ou sobre a CIA, é uma tentativa de salvamento onde se destaca um homem abnegado, as seis pessoas a serem salvas e um contexto histórico onde os EUA saem muito mal na fotografia. O segundo é humanizar aquelas personagens, de uma forma tão realista e sincero. O terceiro é conseguir dar o ritmo perfeito, os planos adequados - rápidos quando a situação o exige, vagarosos quando precisamos de sentir os dilemas, pressões e receios incríveis que aquelas personagens estavam a sentir (de formas diferentes). Outro mérito é não se coibir de mostrar pessoas enforcadas na rua, expostas em guindastes de construção. A única forma de sentirmos que os iranianos revoltados não estavam para brincadeiras e na ânsia de vingança matavam por precaução - uma visão perturbante que nos coloca no meio das personagens.
O único senão é a previsibilidade da história, que ainda por cima é baseada em factos verídicos por isso acredito que não havia grande hipótese nesse aspecto e ele, por meio da realização, cativa-nos de outras formas. Não era o filme que estavam à espera, é melhor por não se perder em demasia na complexidade da espionagem - que acontece em tantos filmes que contam histórias da CIA. Ainda assim, talvez prefira um ou dois dos outros filmes nomeados para Filme do Ano, tendo consciência que o tema de Argo apaixona a anglo-saxofonia por si só, daí que esteja a levar todos os prémios até ao momento, dos Globos de Ouro, aos BAFTA, passando pelos prémios dos principais sindicatos de actores, produtores, realizadores de Hollywood.

A Vida de Pi, Django Unchained são os meus favoritos, e Lincoln anda lá perto, tal como Argo. 
Boa Noite, e Boa Sorte!

terça-feira, janeiro 29, 2013

crystal ship



Oh tell me where your freedom lies
The streets are fields that never die
Deliver me from reasons why
You'd rather cry, I'd rather fly

domingo, janeiro 06, 2013

happy men create

Acho que vou aderir aos modos ingleses:

Dêem-me uma chávena de chá, uma colher de criatividade e uma pitada de humor, and I'm a happy man.


terça-feira, janeiro 01, 2013

ano novo, vida

Boa noite, e boa sorte para 2013.

sexta-feira, novembro 02, 2012

the powerful play goes on

«We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. Medicine, law, business these are all noble pursuits necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, and love; these are what we stay alive for.

To quote from Whitman "Oh me, Oh life of the question of these recurring. of the endless trains of the faithless of cities filled with the foolish. What good amid these? Oh me, Oh life." "Answer...that you are here and life exists....You are here. Life exists, and identity. The powerful play goes on and you may contribute a verse." The powerful play goes on and you may contribute a verse. What will your verse be?»

terça-feira, outubro 02, 2012

what a beautiful mind

what a beautiful night 

have a good bite of life


sexta-feira, setembro 07, 2012

hoje parece que dei um trambolhão da lua

há dias que nos deixam esgotados, sem energia para além da necessária para as funções mais imediatas. estes dois últimos dias foram assim. graças ao passar dos dias amanhã é sexta-feira e já deve dar para recuperar.

segunda-feira, agosto 20, 2012

uma história portuguesa, com certeza



Quem foi Vímara Peres?
A minha passagem pela Galiza este Verão levou-me a descobrir que foi este senhor galego quem usou pela primeira vez o nome Portucale para se referir à zona a sul do Rio Minho. Conquistou o Porto (Portucale) aos mouros com a ajuda de cavaleiros locais e foi o primeiro conde de Portucale (na altura já se estendia para lá do rio Douro), que gozava de alguma autonomia do reino da Galiza. Vímara Peres governou a partir da cidade (burgo) que ele próprio fundou e que tem o seu nome: Vimaranis (Guimarães!) Daí que quem viva em Guimarães seja 'vimarenense', ainda hoje, 1144 anos depois.
A sua descendência governou o condado (Portucale) por mais de 200 anos! Depois esse mesmo condado foi tomado por Afonso VI de Leão e Castela e oferecido a D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques.




Assim, acaba por ser um português bem importante na história portuguesa, tal como foi um tal de Egas Moniz, (não confundir com o prémio Nobel português do século XX) o homem nascido e criado em Entre-Douro-e-Minho que educou D. Afonso Henriques e lhe incutiu os valores e pretensões dos locais do Condado Portucalense.
Existe uma história muito peculiar sobre este português que transmitiu ao jovem rebelde e carismático Afonso Henriques os desejos e tendências autonomistas antigas do condado Portucalense:

Pouco depois da batalha de São Mamede, em que Afonso Henriques vence a sua mãe e dá um passo gigante na independência de Portucale, Afonso VII vai por cerco a Guimarães, então sede política do condado, e exige um juramento de vassalagem a seu primo Afonso Henriques; Egas Moniz dirigiu-se ao imperador, comunicando-lhe que o primo aceitava a submissão.
Contudo, depois de deslocar a sua capital para Coimbra (1131), Afonso Henriques sente-se com força para destruir os laços que o ligavam a Afonso VII; faz-lhe guerra e invade a Galiza, travando-se a batalha de Cerneja (1137), da qual saem vitoriosos os portucalenses.

Como Afonso Henriques não cumpriu o acordado por seu aio, Egas Moniz, segundo reza a lenda, ao saber do sucedido, deslocou-se a Toledo, a capital imperial, descalço e com um baraço ao pescoço. Acompanhado da sua esposa e filhos, colocou ao dispor do imperador a sua vida e a dos seus, como penhor pela manutenção do juramento de fidelidade de nove anos antes. Diz-se que o imperador, comovido com tanta honra, o perdoou e mandou em paz de volta a Portucale. Esta parte da vida de Egas Moniz é recontada por Camões no Canto III dos Lusíadas (estrofes 35-40). Wikipedia





Outros nomes curiosos que fiquei a conhecer: Sesnando Davides, um moçárabe (cristão a viver em território árabe) que foi capturado pelo reino de Leão e Castela e passou-se para o lado cristão, acabando por ajudar na reconquista Cristã,  nas negociações com os árabes e foi tornado governador da zona de Coimbra (está inclusivamente enterrado na Sé Velha de Coimbra), mantendo uma paz muito rara com os chefes árabes das redondezas.
Morreu antes de D. Afonso Henriques nascer, em 1109, e governou sem ligação ao condado Portucale da altura, desde 1064 (quando Coimbra foi conquistada aos mouros) até 1091.

"Foi o responsável pela construção ou reconstrução de diversos castelos entre os quais se destacam o de Castelo de Coimbra, o Castelo da Lousã, o Castelo de Montemor-o-Velho, o Castelo de Penacova e o Castelo de Penela." Wikipedia.
"Foi o responsável não apenas pela pacificação e defesa do território, mas principalmente pela sua reorganização, tornando Coimbra um centro florescente, onde a cultura moçárabe viria a conhecer o seu canto de cisne." Wikipedia.




Uma das coisas peculiares nesta procura pela história passada é ver como os cristãos viviam bem e integrados no território muçulmano e "pegavam" muitos dos seus hábitos evoluídos, na organização das cidades. Daí que tivessem essa designação, de moçárabes, até porque a língua também era influenciada.
A própria língua galego-portuguesa (como se chamava nos primórdios da sua existência conhecida, a partir do século XII) tinha um pouco de influência árabe, mas acima de tudo era um misto de latim (trazido pelos romanos) e dialectos locais da zona da Galiza e do sul do Oeste da península (a zona de Portugal, portanto).
Ir à Galiza é perceber essa ligação forte, não só pela forma de ser dos galegos, diferentes de outros "reinos" de Espanha, mas também pela língua. O galego é português antigo, ou melhor, é galego-português. E isso vê-se por todo o lado e é esmagador para um 'tuga' que goste de história e lá vá, como eu fui.

domingo, agosto 19, 2012

o que é demais é moléstia... 'mister' jesus

Os bons e os óptimos. Há uma linha que separa os treinadores de topo e Jorge Jesus. Olhamos para o Real Madrid, para o Man. United, ou mesmo para o Bayern Munique e uma situação como a de Melgarejo... começar a titular no primeiro jogo da época, seria impensável. Não se pode arriscar nesses clubes de forma tão perigosa. A teimosia não pega (lembro-me da teimosia de Jesus em deixar o Roberto dar fífias seguidas em jogos a fio, da teimosia de por o Cardozo a marcar penáltis, da teimosia de por na esquerda o Bruno César e deixar no banco o melhor marcador com menos minutos da época passada: Nolito, da teimosia de jogar com 2 avançados).
Diz-se que Mourinho elogiou Jesus pela adaptação de Melgarejo a lateral. O elogio não invalida que Mourinho nunca arriscaria em colocá-lo a titular desta forma, até porque um erro poderia ter efeitos nefastos para o jogador. Viu-se isso esta época.

Psicologia do futebol. O jogo de hoje tinha ainda uma condicionante incrivelmente importante que, parece, Jorge Jesus voltou a esquecer. Nas últimas sete épocas (3 das quais com Jorge Jesus ao leme), o Benfica não venceu uma única vez a primeira jornada do campeonato.
As sete épocas sem vencer nesse primeiro jogo têm um registo curioso nos títulos obtidos.1 título nacional. Foi em 2009/10, a primeira época de Jesus no Benfica (já parece uma miragem) e conjugaram-se alguns factores incríveis e, ainda assim, o Benfica teve ir à negra na última jornada para evitar o título do Sp. Braga.
Os factores extraordinários foram a conjugação de dois jogadores nas alas únicos no mundo: o mais ofensivo (e actual jóia do Real Madrid, campeão espanhol em título) Di María e o mais defensivo (incansável, resistente, rápido, ofensivo quando quer) Ramires (jóia do Chelsea, campeão europeu em título).
Outro dos factores extraordinários (e muito relevante) foi o desgaste claro de Jesualdo Ferreira no FC Porto, numa época em que teve de lidar com a perda dos esteios/motores da equipa, Lucho e Lisandro.

Hoje, frente ao Sp. Braga, no jogo de estreia de José Peseiro nos minhotos e em pleno Estádio da Luz, o Benfica voltou a não vencer na 1ª jornada do campeonato. São oito anos/épocas sem vencer! Oito! É um registo incrível para um dos favoritos à vitória em qualquer Liga no mundo.

Qualquer 'José Mourinho' (treinador de topo) no mundo, iria fazer deste jogo o mais importante da época, valorizando-o, incentivando e pressionando os jogadores para a necessidade de acabar com uma malapata tão negativa e relevante (começar um campeonato atrás dos rivais é sempre mau sinal, especialmente quando é o habitual ano após ano). Isso ia-se ver em campo, com os jogadores a jogarem o dobro, isso ia-se ver em campo com o treinador a correr o mínimo de riscos possível. Jogaria a lateral esquerdo alguém rotinado com a posição e seguro, nem que fosse o Emerson (que ainda pertence ao Benfica mas está afastado), nunca se iria apostar numa táctica pouco testada/rotinada e que desprotege o meio campo, como o uso de dois avançados (Rodrigo/Cardozo) em vez do médio criativo (Carlos Martins ou Aimar).

O que é demais é moléstia. São pequenas grandes coisas que fazem a diferença. Para além do facto de já ser habitual o FC Porto ganhar todos os anos o campeonato, Jorge Jesus parece destinado em reduzir as hipóteses da sua equipa registando mais um desaire à malapata que cumpre o seu oitavo ano.
Só que este ano não há Di María, nem Ramires, nem o FC Porto perdeu o motor do meio campo e o esteio do ataque (mesmo que perca Hulk já tem alternativas credíveis com James Rodríguez rotinado em ser Incrível).

Dizem que Vítor Pereira é um treinador mediano e fraco. O senhor de Espinho pode ser fraco e não ter "inventado" Coentrão a lateral, feito render bons jogadores como Di María ou Witsel, mas tem menos tendência para inventar e deixar que o seu ego, teimosia, embirração com certos jogadores (paixões exageradas por outros) e mania da grandeza (antes da grandeza se verificar, existir ou chegar) atrapalhe em demasia. Num campeonato como o nosso, não estragar o que está bem, especialmente quando se treina o FC Porto, é uma virtude de dá títulos.

PS: Na época a seguir a ser campeão pelo Benfica, 2010/11, Jorge Jesus foi para a Supertaça frente ao FC Porto com a confiança no máximo, inventou à grande e à francesa e o FCP do sedento André Villas-Boas jogou com uma vontade inesgotável como se fosse o jogo mais importante das suas vidas (até porque AVB sabe bem a importância desse primeiro momento frente a um rival). Resultado? O FC Porto venceu a Supertaça por 2-0 e vergou o Benfica nesse jogo. O Benfica perdeu 3 dos 4 primeiros jogos da Liga!!! O FC Porto goleou o Benfica por 5-0 três meses depois, no campeonato, no Dragão e ganhou confiança para Janeiro e Fevereiro, quando jogou mal como tudo mas continuou a vencer. O Benfica saiu chamuscado no resto da época e terminou em 2.º... só que a 21 pontos do campeão FCP.
Jesus tem competência e muitos méritos, mas tem graves problemas na falta de capacidade em aprender com os seus próprios erros. E isso leva a que nos momentos chave, fracasse. De que vale a um clube como o Benfica golear por 5-0 durante oito jogos seguidos, se não consegue vencer os jogos principais com o rival número um, se não consegue vencer uma única vez a primeira jornada de uma Liga, se não consegue aguentar-se depois de um desaire e vencer, mesmo que a custo, o jogo seguinte?
O Benfica de Jesus empata pouco, 'prefere' perder. O Benfica de Jesus não costuma deixar um desaire sozinho. Se perde um jogo, empata o próximo ou perde os próximos dois. Ou seja, de que vale marcar muitos golos, estar 10 jogos só com vitórias, se depois segue-se um ciclo de três derrotas?

Resumindo, ao Jorge Jesus falta um bocadinho assim para ser um treinador de topo, mas esse bocadinho assim faz toda a diferença, especialmente porque não treina um clube único no mundo (onde os puxões de orelha do presidente ao treinador valem títulos no final da época), o FCP.

sábado, julho 14, 2012

god and his job

Um iPhone (criado por Steve Jobs) é imaginado, pensado, desenhado, concretizado pelas pessoas que compõem a Apple. Um ser humano (que pode, ou não, ter sido criado pela entidade a que dão o nome de Deus) é feito por outros seres humanos de uma forma espontânea e natural, não imaginada, projectada, desenhada ou concretizada conscientemente (a única concretização consciente é, eventualmente, o acto sexual que permite a criação de um corpo, espera-se, com vida).
Podemos reclamar com a Apple que o produto que eles fizeram tem defeito ou deixou de funcionar, não podemos pedir satisfações a ninguém (com um escritório ou oficina de reparação) que o nosso corpo deixou de funcionar. Os centros de medicina convencional não são bem oficinas de reparação da marca, da Apple, por exemplo, onde se não houver arranjo (e se estiver dentro da garantia) até nos dão um novo aparelho GRATUITO, com tudo o que tínhamos lá dentro intacto e novamente pronto a ser usado, tal como o tínhamos deixado quando parou de funcionar.
Os hospitais são sítios onde se faz o possível, se tenta remendar, colocar umas peças. Mas lá não podemos pedir satisfações: "então, o meu corpo deixou de funcionar, quero um corpo novo o meu dinheiro de volta" - até porque o nosso corpo não teve um custo, não houve nenhuma troca (exceptuando a de fluídos) que tenha permitido que ele tenha ficado na nossa posse.
Quer-me parecer que Deus (se o Senhor existe), tem muito a aprender com a Apple. E acho que Steve Jobs, se ainda fosse vivo e pudesse, pelo facto de estar vivo e ter as suas capacidades intactas, emitir opiniões, concordaria comigo. Claro que o sistema de nascimentos humanos, tal como existe hoje, também poderia ser repensado. É que iríamos deixar de caber todos na Terra muito depressa. Outra solução seria ocupar outros planetas - há muitos, desertos e com espaço a perder de vista! - e disseminar assim os humanos por sítios mais... desocupados.
De tempos em tempos, tal como a Apple, fazíamos upgrade - mantendo a nossa CONSCIÊNCIA e definições anteriores - para um modelo mais recente, com uns olhos que vêem mais ao longe, conseguem ver no escuro e até conseguem ver no interior da roupa das senhoras. Com capacidade de processamento mais evoluída, para podermos levar o lixo à rua, lavar a louça ou passear o cão em milésimos de segundo.
Esta noite vou SONHAR com um mundo assim. Depois conto como correu, ou então podem ver o filme, numa sala de cinema perto de vocês - se ainda forem vivos na altura.

Enfim. Fim.

alive is optimus

olho para o meu corpo com cada vez maior admiração. não são os músculos que estão mais tonificados ou a beleza que cresce a cada dia que passa - bem pelo contrário, cresce a gordura (vidas sedentárias) e a juventude vai fugindo. é o meu corpo que me permite Ser. já funcionou melhor, é certo, mas permite respirar e agir, reagir, comunicar e experienciar.
quando era miúdo, agora já posso dizer, há umas décadas atrás, achava que aquele (sim, porque entretanto cresceu e mudou em certa medida) era o MEU corpo. havia um misto de sentimento de posse, por um lado, sentimento de descoberta, por outro. as primeiras feridas eram o fim do mundo. chegava a perguntar à minha mãe se ia morrer com aquele arranhão no joelho - na altura parecia-me uma pergunta perfeitamente lógica, ora, se estava a sair sangue, quem me garantia que essa perda não seria irreparável.
nada como o passar do tempo e a experiência repetida para deixar esses receios para trás e passarmos a ser arrogantes com o nosso corpo e a tomá-lo por adquirido.
nessa altura, quando era miúdo, quando fui para a Primária e conheci a minha primeira professora, a Dona Esperança - cujo corpo já deixou de ter vida, há uns anos (fui ao funeral dela) -, tinha a certeza que o corpo me pertencia e portanto podia fazer com ele o que bem me apetecesse. ia testando os limites, os saltos, a força, era um corpo em crescimento, pronto para ser testado e magoado sempre que os testes iam longe demais - a minha testa e joelhos que o digam.
hoje vejo o corpo de forma diferente. sim, podemos fazer com ele o que nos dá na gana, tatuagens, marcá-lo para a vida, cicatrizes de aventuras, acidentes e tristezas, cirurgia plástica. tudo é permitido, nada nos diz que ele não nos pertence. MAS o corpo que usamos não nos pertence. é um veículo que usamos para ter vida, para respirarmos, funcionarmos, comunicarmos, agirmos e reagirmos, mas não é nosso. não é nosso porque a partir do momento em que deixa de funcionar bem, começa a ter problemas e entramos em modo GAME OVER deixamos de o possuir. deixamos de ter vida.
tudo está concentrado no cérebro, sem cérebro, o coração pode continuar a bater mas a vida consciente já não mora ali - chamam-lhe a morte cerebral, mas é morte. o que é a morte? a piada é que é o contrário de estar vivo. mas é. não é piada. e é coisa tão divertida quanto séria. tão assustadora quanto inevitável - segundo sabemos - e insignificante. algo que acontece a todos só pode ser insignificante. no entanto é assustadoramente real e irreparável. não há volta atrás. não há segundas oportunidades, quando ficamos sem vida, ou voltamos dentro de uns instantes breves, ou vamos manter-nos assim para sempre. e o sempre - esse estado permanente - tem muita força, tanta quanto "o que tem de ser tem muita força".
o corpo é descartável. como a máquina fotográfica que se usava há uns anos atrás. é usar e deitar fora - curiosamente nunca é o morto que se vê livre do seu próprio corpo. e convém mesmo deitar fora porque os corpos "infestam o bar". sem vida? pode-se usar partes para ajudar outros, mas a vida que havia ali foi-se. acabou. o definitivo é muito forte e, neste caso, cria uma aura de mistério para nós, seres humanos.
tenho de utilizar este meu corpo para fazer umas coisas, porque depois deixo de existir. posso ir amealhando coisas, muitas coisas, bens, carros, casas, riquezas, relógios, roupas, opiniões, preferências, crónicas, textos, livros, ideias, segredos, tristezas, alegrias. mas quando deixo de existir deixo tudo para trás, para outros, os vivos. e o que não deixo à mostra, o que pensei fazer mas nunca fiz, perde-se para a eternidade - o tal sempre, definitivo.
daí que o corpo é, de facto (com 'c'), um veículo, uma máquina orgânica que usamos, como usamos o carro para ir do ponto A (Algueirão) ao ponto B (Benfica, a localidade) ou a máquina fotográfica para tirar as fotografias que é possível tirar e depois deitamos fora. o que faz o corpo ser um veículo é esta coisa que se pode chamar CONSCIÊNCIA, ou inteligência, ou raciocínio, ou capacidade de comunicação e/ou compreensão. há quem lhe chama alma e acredite com todo o seu ser que existe um HADES (um mundo metafísico) para além do corpo (a funcionar), para além da vida. há quem acredite que nesse hades há o hades bom (céu/paraíso) e o hades para os maus (inferno). acreditar é uma daquelas coisas que fazemos quando estamos vivos. e como pessoa viva sou daqueles que espera para ver. acredito. acredito que não sei se acredito ou se não acredito num HADES.
é um tema tão antigo quanto a humanidade. essa humanidade que percebeu: "porra, quando o gajo morre não vive mais depois disso, pelo menos neste corpo que achamos que é nosso". desde essa primeira constatação que se criaram crenças no sobrenatural, no divino, no 'não presente' perante os nossos sentidos. há relatos suficientes para haver quem acredite em todo o tipo de possibilidades. que se saiba, cientificamente, não há relatos/elementos/provas suficientes para provar para lá da mínima dúvida a existência desse HADES. estamos certos que existimos porque os nossos sentidos, os que o nosso belo corpo providencia, nos mostram que existimos.
através do tacto (com 'c'), visão, olfacto (com 'c'), cheiro... experienciamos o planeta Terra e muito do que vem nele (incluindo o elementos, os vegetais e animais - como os humanos) e ainda o Sol, Lua e estrelas longínquas que o iluminam e influenciam (o planeta e a nós, por acréscimo). 
há dias em que ficamos na dúvida se não será tudo um sonho, como um filme de David Fincher ou David Lynch, mas vamos confiando nos sentidos do 'velho' e durante alguns anos honesto corpo.

os robots nunca ficam fragilizados com o seu fim, pelo menos nos filmes. vão desligar a ficha? acabou? faz tudo parte do processo. pode-se procurar ficar mais tempo em actividade, mas se não houver outra hipótese, resta acolher a inevitabilidade tal como ela é, inevitável.
posto isto, resta-me terminar com uma confissão muito humana. a morte IRRITA-ME. irrita-me porque não a compreendo. entendo que tudo tem um fim. entendo que o corpo não dura para sempre - até porque até ao momento (peço desculpa pelos dois 'até') a ciência/medicina ainda não encontrou forma credível de transportar um cérebro em funcionamento para um outro corpo (mecânico) que dure muito mais do que os 70-115 anos limite para todos os humanos (o limite, que se saiba, foi atingido por Jeanne-Louise Calment que cumpriu 122 anos de vida e perdeu-a, a vida, em 1997).
o que me irrita na morte é saber que a minha consciência e experiência - em conjunto - vai, de facto, deixar de existir, pelo menos considerando que o cérebro não tem nada de metafísico e não irá 'subir' ao HADES. lembro-me quando o meu bisavô Abílio morreu, de ter esperado por um sinal dele. um vislumbre de que havia existência além da morte. pedi-lhe. quis acreditar. e tive respostas - barulhos e coisas que caíram. infelizmente (ou felizmente, não sei) nada que me fizesse acreditar que eram sinais dele. o peculiar é que há muitos mais mortos do que vivos. ou se calhar não. só há vivos. porque quando se morre, pelo menos o corpo passa a ser "ashes to ashes, dust to dust" - parte do vasto espólio do que não vive. boa noite e, mantenham-se vivos.







os cães ladram e a caravana passa

Não existem crónicas nos jornais a pensar sobre a vida, o que importa, o que nos move e deve mover, o que nos motiva e deve motivar. Os jornais/telejornais são cada vez mais palcos de notícias espectáculo sobre ou temas sumarentos, ou vinganças mesquinhas e onde o rigor e os princípios base do jornalismo à muito deixaram o edifício destas redacções cada vez mais pequenas, longínquas (da acção, da realidade, da reportagem) e, diga-se, tristes. As notícias/jornalistas, como os cronistas, estão reféns da sua profissão. Têm algo a perder, nem que seja a fama ou as palmadinhas nas costas (ou os Likes), por isso deixam-se levar pelo espectáculo, pelos fait divers e pelos clichés que viram moda e de que toda a gente quer ouvir falar, quer ouvir gozar. Os cronistas/jornalistas que discordam, já desistiram e refugiam-se falando nos temas da forma mais ligeira que conseguem.
O palco pode ser cruel, portanto vamos todos ser cordeiros e seguir as modas para não perdermos o pouco que achamos que temos. No fim de contas, os dias passam e os cordeiros disfarçados de cães vão seguindo a caravana.

quarta-feira, junho 20, 2012

passagem pelas flores


  • Existem dois carros por casa na Ilha das Flores, (quase) todos são em segunda mão, até porque na Ilha não dá para fazer a rodagem de forma decente. 
  • Nas Flores dizem que existem 70 mulheres para cada 30 homens. Não me parece que seja tanto, mas os florentinos dizem que são eles a terem várias hipóteses de escolha...
     
  •  Os habitantes das Flores são os florentinos. Saudações florentinas!
  •  As Flores à noite são uma explosão de sons da natureza - grilos, o que parecem ser garças, pardais, painhos-de-monteiro, garajaus...) -, no meio de uma escuridão intensa com muito poucas luzes a iluminar os caminhos. Só existem candeeiros junto a algumas casas; no resto da estrada é pura escuridão e... ravinas. Mas o mais engraçado é conseguir ver com muita facilidade as luzes do Corvo, lá ao fundo. Hoje o ar é quente, está-se bem cá fora e ouve-se tão bem o Atlântico, turbulento, sonoro, rebelde. Incrível como até nem está muito vento aqui em Santa Cruz das Flores. Nem parece que estamos no meio do Atlântico e já em plena placa tectónica norte-americana.
  • Dizem que é frequente ficar-se retido nas Flores uma semana devido ao mau tempo... A aterragem meteu muito respeito, must I say. E apesar de estar sol, de vez em quando chove... Uns 5 segundos, depois pára. É um conceito novo de aguaceiros.
     
    • A maior população florentina é a dos coelhos. Um dos passatempos que podemos fazer enquanto nos deslocamos entre as vilas da ilha é contar os inúmeros coelhos que fogem da estrada (espera-se que a tempo) à nossa passagem. São pequenos e fofos, mas rápidos e fugidios.
    • A pecuária e exportação de gado é um dos principais negócios da ilha. As muitas vacas florentinas têm de se aguentar nas muitas colinas da ilha. Decoram a paisagem, com as suas cores castanha, branca, branca e preta. Também há ovelhas e cabras.
     
  • É uma sensação estranha mas ao mesmo tempo agradável estar em Portugal, mas no meio do Atlântico. A Internet (que na Flores é bastante lenta porque NÃO HÁ FIBRA ÓPTICA) veio aproximar o país, como a televisão já o tinha feito há umas décadas. Aqui também não há rede da Optimus. 
     
     

quarta-feira, maio 16, 2012

proud portuguese


Genuinamente a torcer por Portugal.
(e não me refiro necessariamente ao Europeu de futebol)

terça-feira, maio 15, 2012

vida na redondinha



O planeta Terra, a 4 de Janeiro de 2012. 

Ali há vida, diversa, complexa, pensante (em demasia), repleta de convenções e populações.

bom e mau, há uma linha que os separa

Quando vejo o Top Gear USA, percebo um pouco mais de que não basta ser belo ou competente em televisão, temos de ser genuínos e sinceros no que fazemos e conseguir "quebrar o gelo" da forma mais natural possível. Por isso, o Top Gear USA é "a big bollocks" e o Top Gear original continua a ser tão único e especial (embora tenha os seus momentos).
 

a sério, paul?



Paul McCartney: I got blamed for The Beatles breaking up, which wasn’t actually true.

people lie, they do, a lot

Um médico, hoje ao almoço, diz-me
- Os doentes mentem, as pessoas mentem, constantemente.

Ao que eu respondo:
- O Dr. House já diz isso há muitos anos....

constatações sociais

PORTUGAL.
Um país a precisar de hibernação. Ou isso, ou de umas drogas leves.

terça-feira, maio 08, 2012

oh captain my captain

Entrevista a Robin Williams em 2009, Los Angeles, a propósito do filme Old Dogs.