sábado, maio 31, 2008

cuidado, atenção... jornalismo não é isto

O concerto de Amy Winehouse no Rock in Rio, ontem à noite, foi notícia e motivo de comentários extensos nas últimas horas um pouco por todo o lado. Antes do concerto havia a dúvida se a cantora iria, sequer, aparecer (era o primeiro concerto após meses de recuperação do vício de drogas numa clínica de reabilitação).

Muito poderia falar sobre esse momento que mais parecia um circo, mas o que me leva a escrever este post é um motivo jornalístico. O Público quis fazer foto de capa com o concerto da artista britânica da voz fenomenal e com o repertório soul de respeito, conhecida por ser decadente até aos limites. Tudo bem e é justificadíssimo. Mas o que não se justifica são duas coisas que me parecem graves:



1) O jornalista especialista em música Vítor Belanciano, que assina a fotolegenda da foto de capa, não refere uma única linha sobre aquilo que foi o concerto (não é uma opinião, é facto): não fala na voz rouca de Amy; na pose cambaleante e aparentemente embriagada; nos tropeços; na improvisação das letras das canções; nos enganos constantes nas letras; na falta de voz; no pedido de desculpas: "devia ter cancelado, a minha voz está horrível";

enfim... em 50 minutos de tentativa de espectáculo, na realidade, há mais a enfatizar no que correu mal, do que no que correu bem (nada que não se tivesse à espera). O que é grave falar-se que Amy não desiludiu e "ao terceiro tema agarrou o público". Amy pode ter agarrado o Público (o jornal), mas já o público não agarrou. Aliás pareceu opinião unânime nos comentários da imprensa e do próprio público, muito pouco vibrante com uma coisa tão mal amanhada.





2) Escrever "Ao terceiro tema, Me and Mr. Jones, agarrou o público" é faltar à verdade. Na verdade, segundo o Blitz o tema Me and Mr. Jones foi dos últimos e não o terceiro a ser tocado (como acho que estava no alinhamento inicial que Amy trocou por completo!). Ora isto indicia algo problemático no jornalismo de imprensa: escrever por antecipação. E quando se trata de um concerto imprevisível como o de Amy Winehouse foi um risco muito, muito, muito mal calculado e irresponsável. Ou foi engano (que não parece até pela forma como se descreve um concerto bom e que "não desiludiu"), ou foi (e parece) antecipação. Há algo muito desnecessário e mau nisto tudo que prejudica o Público como jornal. O que não se percebe é que houve tempo para tirar a fotografia a Amy e enviá-la para o jornal, mas não houve para ligar a televisão na SIC Radical (que existe no Público) e ver um pouco do concerto, em directo... (parece)

O concerto já foi um pouco tarde, é certo. Era suposto começar às 22h e começou às 22h35. Mas era só a capa do jornal e podiam ter esperado até às 23h25, altura em que terminou - quanto muito fechavam a capa às 23h e já sabiam os problemas do concerto e que a terceira música não foi Me and Mr. Jones.
(pormenor: também não vi em lado nenhum que foram 100 mil espectadores, vi sim 90 mil, mesmo antes do concerto)








Aqui fica a pérola na capa do Público (a foto é boa, o texto não):




Para quem não consegue ler o texto é o seguinte:


Rock in Rio Amy Winehouse provoca maior enchente de sempre
"O concerto começou atrasado, cerca de meia hora, mas Amy Winehouse não desiludiu quem ontem esteve no parque da Bela Vista, no primeiro dia do Rock in Rio 2008. Cerca de 100 mil pessoas esperaram pela cantora britânica (e ainda por Lenny Kravitz e Ivete Sangalo, que também actuaram no palco principal), naquela que é a maior enchente de sempre de um festival que cada vez mais parece um centro comercial ao ar livre, com imensos recintos dos patrocinadores. Amy apareceu nervosa mas com o look habitual: penteado e vestido muito anos 60. Ao terceiro tema, Me and Mr. Jones, agarrou o público. " Vítor Belanciano








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Já o Blitz diz isto: O tão aguardado concerto da cantora britânica realizou-se mesmo. Amy chorou, quase caiu e assumiu que devia ter cancelado. Cedo se percebe que a voz não está na sua melhor forma e ao fim do primeiro tema, entre várias coisas imperceptíveis, diz «Olá Lisboa».



E o Diario Digital diz isto: O palco Mundo do Rock in Rio 2008 teve logo na sua noite de estreia um daqueles momentos que ficará na história dos concertos em Portugal com a passagem de Amy Winehouse por Lisboa. Uma actuação decadente. (...)
Começou com «Addicted» e logo se percebeu que o seu estado estava longe da sobriedade. Foi um concerto na corda bamba, de voz rouca, desiquilibrada nos seus saltos bem altos, e condicionada pelo excesso de consumo de álcool, ou drogas, ou ambos, Amy foi o expoente máximo da figura decadente, e degradante da cultura pop. Um concerto tão mau, tão desastroso que entra directamente para um lugar de destaque na história das lendas ao vivo, e que acaba por ser memorável. Falhas de voz, perdas de sapatos, enganos nas letras, cantar fora de tom, tudo o que uma estrela decadente deste meio pode oferecer a uma plateia pronta a celebrar a desgraça de uma figura à escala mundial. Foi quase uma hora de circo em que Amy se aguentou no limite cumprindo o alinhamento previsto que contemplou todos os sucessos que se queriam ouvir. Tão mau como inesquecível.




Público online (via Lusa): Amy Winehouse actuou quase sem voz e alcoolizada no Rock in Rio
Sol: Rock in Rio: A noite do palhaço triste


IOL Diário: Amy Winehouse: actuação para esquecer no Rock in Rio
TSF: Alcoolizada e afónica, a cantora não respeitou o alinhamento previsto.
RTP (Lusa): Rock in Rio: Afónica e alcoolizada, Amy Winehouse actuou num recinto esgotado De copo na mão, rouca e a desculpar-se pelo atraso, Amy Winehouse actuou, sexta-feira à noite, no festival Rock in Rio-Lisboa, perante 90 mil pessoas, num Parque da Bela Vista esgotado.

1 comentário:

Wellington Almeida disse...

Ah, mas aquilo foi um clássico. Quem é que estava ali que vai esquecer dessa noite? Para os anais da história da música pop ;)

P.S. Não percebi a pérola da capa do Público. Achas que quem causou aquela enchente no RIR foi quem senão a Amy?