domingo, março 01, 2009

reportagem de milão ii














Esta é de 23 de Fevereiro, segunda-feira.



REPORTAGEM EM ITÁLIA
Falámos com Mourinho… mas pouco
Continuamos o nosso périplo por terras milanesas e hoje partimos à descoberta do pobre Centro de Treinos do Inter, onde interviemos na conferência de imprensa de José Mourinho, e em San Siro, onde vimos Ferguson, Ronaldo, Nani e companhia.


Olá Zé, chamo-me João Tomé e gostava de o entrevistar, se possível”. A mensagem simples e directa foi escrita numa folha de um pequeno caderno e direccionada da primeira fila da conferência de imprensa de antevisão do Inter-Man. United para José Mourinho, enquanto um tradutor da UEFA traduzia para italiano o que o técnico tinha dito. Mourinho leu a mensagem, foi a única pessoa da sala repleta de jornalistas a vê-la, sorriu, e torceu o nariz dizendo mimicamente “não posso”.

A nega não nos impediu de fazer uma pergunta em português já no final da conferência, no pobre Centro de Treinos de Appiano Gentile, mas já lá vamos. Mourinho começou a conferência algo sisudo e muito sério, e acabou mais solto e alegre (os ingleses e portugueses ajudaram). Depois dos jornalistas ingleses terem inquirido “Joese Mourino” sobre a táctica a utilizar e os seus conhecimentos sobre o Man. United, foi a vez dos jornalistas italianos "atacarem" falando sobre as críticas à arbitragem de Carlo Ancelotti do último Inter-Milan. Ao seu melhor estilo Mourinho criticou Ancelotti por “ser o único a considerar o golo do Inter irregular” e não ter visto nem falado de outros lances em que o Inter saiu prejudicado, e perguntou: “Ele acha que somos parvos?”.

Português foi proibido (quase)
Na conferência de imprensa desta tarde estavam dois jornalistas da televisão portuguesa (incluindo Noé Monteiro, da RTP), e dois da imprensa nacional, o Destak estava neste lote. Apesar da presença, as perguntas em português foram banidas pelos responsáveis antes da conferência começar. Foi preciso Mourinho ter dado instruções para duas perguntas em português, para os dois membros da televisão terem oportunidade de inquirir o técnico sobre expectativas para o jogo e qual seria a marcação a Cristiano Ronaldo ("não terá marcação directa, tem muita qualidade, mas não marcamos assim ninguém, prefiro à zona").

Foi depois da resposta de Mourinho que conseguimos perguntar ao técnico (sem microfone e à revelia dos responsáveis italianos), se "os lances de bola parada serão fulcrais na eliminatória" – o treinador português tinha dito antes que esperava um jogo muito renhido e com decisão só garantida no final da segunda partida, em Old Trafford (à semelhança do que aconteceu com o FC Porto de Mourinho, a ser salvo pela “cabeça” de Costinha no final do jogo da Champions, em Inglaterra, há cinco anos atrás).

Resposta: “As bolas paradas podem ser fundamentais. Temos estado a treinar tanto na defesa como no ataque. Eles têm uma equipa que nós não temos, com quatro ou cinco jogadores com 1m94/95, Ferdinand, O’Shea, Berbatov, Vidic (que joga na 2.ª eliminatória), o Cristiano que está perto do 1m90 e que de cabeça também é forte. Nós somos uma equipa mais pequena, temos o nosso modo de defender bolas paradas, defendemos misto. Alguns jogadores fazem marcação ao homem, outros fazem a zona. Não sofríamos nenhum golo de bola parada, sofremos um no último jogo do campeonato, se calhar essa falha poder-nos-á ajudar a ter um bocadinho mais de cuidado nesta eliminatória”.

Falhas na tradução, jornalistas e provocações
José Mourinho é um treinador atento aos pormenores. Isso não muda, bem pelo contrário, na sala de imprensa, onde mede bem as palavras (mesmo as mais agressivas têm, normalmente, um intuito de ajudar a sua equipa ou a sua estratégia). Esta tarde não foi excepção. Com jornalistas de todo o mundo (predominantemente ingleses e italianos, que pareciam em números iguais), Mourinho ouviu com atenção a tradução às suas palavras pelo tradutor de serviço da UEFA. Chegou mesmo a emendá-lo em duas situações caricatas. Uma delas fê-lo rir a alto e bom som e levar as mãos à cara, tal foi a diferença do dito ao traduzido.Bem diferente da postura inicial, austera, dura. Nos breves minutos de perguntas a Zanetti, Mourinho espreitou uma revista, sempre muito sério.

Os jornalistas também tiveram a sua quota-parte de más citações. Na conferência de imprensa que se seguiu à de Mourinho, esta já na sala de imprensa de San Siro, os jornalistas ingleses atiravam frases feitas que Mourinho não disse, ou que referiu mas de uma forma bem diferente, para provocar Sir Alex Ferguson (como todos os ingleses lhe chamam). O técnico escocês, experiente nestas andanças, brincou com algumas das citações erradas e mais provocatórias, inclusive uma em que Mourinho teria dito (segundo um jornalista) que o United vinha a San Siro com o mero intuito de não perder o jogo – algo que o português nunca disse.

Outra coisa que José Mourinho nunca disse, mas que chegou a vários sites desportivos estrangeiros e portugueses dessa forma foi “o United vem jogar muito à defesa”. Na conferência de imprensa o técnico emendou inclusive um jornalista que lhe disse isto, repetindo, “o que eu disse foi que vêm jogar de modo diferente da Liga inglesa, só isso”.

San Siro para inglês e português verem
Após a conferência de imprensa de Ferguson, onde também esteve um Berbatov algo aborrecido (já na conferência de Mourinho o capitão Zanetti esteve alguns minutos no início e depois saiu), houve treino do Man. United em San Siro. Presentes estiveram, naturalmente, os portugueses Cristiano Ronaldo e Nani, que se nota serem bastante amigos dos brasileiros do plantel do clube de Manchester e dos mais divertidos do plantel.

No épico e estonteante, mas também muito frio (coisa que não tem faltado em Milão), estádio de San Siro milhares de flashes e muitas câmaras captavam ao pormenor os momentos do treino ligeiro.

A televisão oficial do Man. United fazia nesta altura um directo do estádio, com a presença de uma antiga glória do clube, que falava sobre a eliminatória de forma clara: “é o jogo do ano, até agora. Dois velhos conhecidos reencontram-se novamente, agora em campeonatos diferentes. É o embate que mais expectativa está a criar no mundo do futebol e esperemos que os deuses estejam com o United, porque vai ser difícil”.

(Des)organização italiana
Se no domingo já tinha ficado claro que a organização para comprar bilhetes é um ponto muito negativo na estrutura do Calcio (a confusão faz parte da normalidade por aqui), a organização do Inter também fica aquém do esperado para um campeonato que está no top dos melhores do mundo. Se a falta de condições (não há Internet em Appiano Gentile) para os jornalistas é óbvia, o mesmo acontece com a segurança.

Foi fácil demais entrarmos no Centro de Treinos do Inter. Não foi necessario mostrar qualquer credencial e a desorganização também quase nos levou a perder a conferência de imprensa de José Mourinho. O que inicialmente estava previsto para as 15h foi alterado para as 14h, quase sem aviso prévio.

Appiano Gentile, o fim do mundo
Fica a cerca de 50 km da cidade de Milão e é uma localidade com muito poucas casas e muitas planícies (no ar nota-se uma camada de humidade peculiar). A zona, perto do Lago Como, não tem quaisquer serviços. A estação de comboios mais próxima (único transporte directo para lá chegar sem ser por viatura própria) fica a alguns kms, na pequena vila de Lomazzo, mas nem sequer táxis existem com facilidade (é preciso ligar).

No meio, literalmente, de nada, fica uma infra-estrutura que parece ser bem mais pequena do que o Centro de estágios do Seixal, do Benfica, com dois campos de futebol principais e um edifício central muito pouco exuberante e com condições muito pobres para um clube tão rico.

Peculiar mesmo foi termos encontrado uma família portuguesa no meio dos tiffosi italianos (cerca de 30) que estavam à porta do Centro de Treinos, à espera da saída dos jogadores. Uma mãe portuguesa e as suas duas filhas explicaram que estavam ali “porque moramos a poucos kms do Centro”. Afinal os portugueses do Inter não são os únicos a viver naquela zona.

Amanhã esperamos estar em pleno San Siro, desta feita lotado, para sentir as vibrações (até porque San Siro vibra (literalmente, a fazer lembrar o antigo Estádio da Luz) com o cantar e saltar dos tiffosi, do Internazionale di Milano vs. Manchester United, a primeira-mão de uma eliminatória que Mourinho espera resolver só em Old Trafford. Foi lá que há cinco anos fez história ao eliminar o United no seu próprio estádio (golo de Costinha no último minuto), num ano onde venceu a Liga dos Campeões pelo “modesto e pequeno (piccolo)” FC Porto, como disse hoje o técnico português.











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